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Full text of "These inaugural"

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FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA 



These inaugural 




IDE 



Antonio Jose' Pereira da Silta Araujo Júnior 



EX-INTERNO DA CLINICA CfRTJRGICA U.V FACULDADE DE MEDICINA 
NO HOSPITAL DA CAKIDADE 

e @3, êy|)ípa-li.cu ^Ms)u,m,% ©ícVctwj-o 



Natural da Bahia. 



Altissinms creavit de terra medicanieuta, 
et vir prudens nou abliorrebit illa. 
(Eccl. Cap. XXX VIU, v, i. ) 

Depois da sciencia da Religião, a Medi- 
cina é a primeira das sciencias: e a mais 
alta Biissão do homem, depois da dos alta. 
rcs, é a de ser o sacerdote do fôgo sagi-ado 
da vida, senlior das forças occidtaa deposi- 
tadas no seio da naturesa, dispensador dos 
mais bellos dons de 'Deus. 

CoNs. Bastos, coll. de imínsamek- 
Tos. 18.54, p. 39. ; 



B A ÍI I A 
YL'OGRAPHIA— AMERICANA 
1871. 



FACULDADE DE xMEDICINA DA BAHIA 



DIRECTOR 

O EXM. SR. CONS. DR. ANTONIO JANUÁRIO DE PARIA 
VICE-DIRECTOR 
O EXM. SR. CONS. DR VICENTE FERREIRA DE MAGALHÃES 
LENTES PROPRIErARIOS 
i? Aiiia©. 

Os SlíS. DotTTOEES Matekias quk i.eccionão 

C Physica em geral, e partieiílar- 
Oons. Vicente Ferreira de Maga-< mente era suas applicações á 
Ihães ( Medicina. 

Francisco Rodrigues da Silva Chimica e Mineralogia. 

Barão de Itapoan Anatomia descriptiva. 

Antonio do Cerqvieira Pinto Chimica orgânica. 

Jeronymo Sodré Pereira Pliysiologia 

Antonio Mariano do Bomfim Botânica e Zoologia. 

Baráo do Itapoan Repetição da Anatomia descriptiva. 

Cons. Elias José Pedrosa Anatomia geral e pathologica. 

Pathologia geral. 

Jeronymo Sodré Pereira Continuação de Physiologia. 

4? ABJ5110. 

Pathologia externa. 

Demétrio Cyriaco Tourinho Pathologia interna. 

Cons. Mathias Moreira Sampaio. .. ^ í'"*"'*,' ^"^^l^^-^i^^^^^^ "^""'«^^.^P**^'»- 
^ ( das e de memnos recemnascidos. 

5° Amuo. 

Demétrio Cyriaco Tourinho.. ' -Continuação de Pathologia interna. 

Luiz Alvares dos Santos Matéria medica e Therapeutica. 

José Antonin de FreitT? 5 Anatomia topographica, Medicina 

,J 036 Antonio ílc i reitas j operatória e Appareliios. 

6? Ansio. 

Rozendo Aprígio Pereira Guimaiães. Pharmacia. 

Salustiano Ferreira Souto Medicina legal. 

Domingos Rodrigues Seixas Hygiene e Historia da Medicina. 

JoséAffonso Paraizo de Moura Clinica exiema do 3.° c 4.° anno. 

Antonio Januário de Faria Clinica interna do 5.° e 6.° anno. 

OPPOSITORES 

Domingos Carlos da Silva 

Augusto Gonsalves Martins | 

Antonio Pacifico Pereira )■ Secção Cirúrgica. 

José Pedro de Souza Braga I 

Alexandre AHbuso de Carvalho j 

José Ignacio de Barros Pimentel...") 

Ignacio José da Cunha I 

Pedro Ribeiro de Araujo }■ Secção Acces.soria. 

Virgiho Climaco Damazio I 

José Ab^es de Mello I 

Claudemiro Augusto de M. Caldas.. 1 
Egas Carlos Moniz Sodré de Aragão | 

Ramiro Affonso Monteiro j- Secção Medica. 

Manoel Joaquim Saraiva | 

José Luiz de Almeida Couto j 

SECRETARIO 
O SR. DR. CINCINNATO PINTO DA SILVA 

OFFICIAL DA SECRETARIA 
O SR. DR. THOMAZ DE AQUINO GASP.AR 
AFaeuldade não appreva nem reprova as opiniões emittidas nas thcses 

que lhe sao aprescntiidas 



Ao Leitor 



@ %ue é- uma tiiese ! 

Para nós, os alumnos, é a ultima prova autes de 
nos transi ormarmos em míerj^rfifcs das leis do or. 
ganismo humano, na elegante phrase cie Andre-velan^ 
no seu Código moral do iuedico. 

A Faculdade do Medicina, depois de exigir ao 
neopLyto do Telho de Cós a synthese tlieorica dos co- 
nhecimentos medicosj após o ensino miuucioso e acu- 
rado á cabeceira dos doentes, no lahôr quotidiano do 
hospital — impõe logo em seguida a prova talvez a 
mais nobre, embora tambein amais dillicil e espinhosa 
— impõe-lhe a tbese ! 

Tinha«lhe já exigido os conhecimentos theoricos 
sobre a medicina em si o nas collateraesj tinha-o feito 
observador e pratico, no recesso da enfermaria, entre 

a sciencia e o doente quer mais alguma cousa 

ainda — quer vel-o autor ! 

Tiuha-ihe já ensinado a theoría. 

E © qM« é a theor-ia ?! 



II 



A tlieoiía em medicina é quasi o cliaos] Quasi, 
porque in totum o não é, bradem muito embora o s 
zoilos, esbravejem sépticos. A medicina é quasi o 
€"haos^ porque o chãos é a confu?ão na^immensidade! 

Ao primeiro relancear d'olhor,a vista do espectador 
se turba, como si do pináculo do elevadississima torr© 
a contemplar a terra. Aqui porque Ibe parece immi- 
nente a queda e horroroso o despedaçamento que tem 
de experimentar o corpo. Ali porque o espirito sup- 
põe que vae se aniquilar em tresvarios, ao embate 
fortuito do tanta idóa imaginaria! E como lá é frágil 
demais o corpo para tão grande abalo — aqui pare- 
ce demasiadjimente fraca a intelligencia para tão ele- 
vada aprendisagem! 

15' a sciencia quasi um cbaos, do relance, porque 
impaensa e confusa! 

Mas d'onde a"' confusão! ! . . . d'onde^ a jmmeiisi"-' 
dadel! 

A medicina é heterogénea. 

A medicina é a cbimica, a medicina é a physica, 
a medicina é a botânica; é a zoologia e também a 
miijeralogia. As f-cicnclas naturaes fornecem-lhe um 
contingente á base. 

A medicina ó ii^ualmente a anatomia, a pliysiolo» 
gia, a pathologia, a clinica, a matéria medica, a the- 
rapeútica, a hygieas, a phar macia, a obstetriçia, a 
■histologia, a medicina Iegíit._> . .isto uma eíadei.a ôon 



111 



Mderavel dé scieucias importautíssimas, cada q_mi\ 
mais vasta, mais difficil, mais essencialmente posi- 
lâva ! 

1 medicina ó quasi a sciencia ! Pelo menos toda 

a sciencia lhe é inquestionavelmente tributaria. 

A' primeira vista tudo iáso se uss ofiferece im- 

Baen^ó, gigantesco, collosal, quasi divina ! . . . e quasi 
sem limites^ ! 

Que talento abrangerá, não diremos em syutliese, 
que é myster menos difficil, mas na analysa indispen- 
sável ao positivismo e interpretação de eada um iso- 
ladamente e de todos os factos em coajuucto, que 
talento, perguntamos, abrangerá tantos conhecimen- 
tos, reanil-os-ha em um &ó conhecimento-^ da me- 
dicina ?! I 

Nenhum. Atrevidamente ousamos affliaçal-o. 

Eis porque a medicina nos pareça aptima/acie 
quasi um chãos, onde o mesmo génio, chame-se elle 
embora Bichat ou Broussais, Hunter ou Harvey, irá 
irremediavelmente, píecipitando-se, submergir-se . 

Bem como na amplidão do espaço, paira em 
sobresaltoa vista do areonauta sobre a variegada su- 
perficie do globo, pasmada da diversidade do pa- 
norama: o mar junto á terra, o rio rasgando-lhe em 
profundeza a crosta, o válle entre os oiteiros, a serra 
nua e gelada ao pó do prado ameno e risonlio, a 
fera na raiz do arvoredo em cujo vértice repousa e 



IV 



pàssarjiihOj o g^illio sccco o despido junto á rama 

verdojanto o florida assiiii o neophyto espallaa 

a vista pelo campo illimitado da, medicina, e cou- 
ícmpla, pasma e se extasia! 

Isto, porem, só á primeira vista, 

Aar.aly3o completa aonhum medico procura con- 
seguir, A sytithese total lho basta — seguiudo-so ]m- 
mediatair eate o conhecimecto cabal de um ou poucos 
ramos: ó então o patliologista, o tlierapeuti.sta, o cli- 
nico, etc. 

D'est'arte uão maia o chãos: tampouco a con- 
fusão. 

E' esse conhecimento geral o synthetico, mais 
aprofundado nos ramos essencialmente médicos, que 
a Faculdade exige. 

Eíisa a theoria. Vejamos agora a pratica. 

Eis o que verdadeira meu te constitue o medico, 
ou melhormeate o clinico. 

Depois de preparado o espirito nos conhecimen- 
tos theoricos, começa o iudispensavol estudo pratico 
das moléstias. 

Não ó o empyrismo vil e criuainoso do charlatão, 
labeií da humanidade, mas o positivismo racional da 
sciencia eminentenionte positiva — a clinica. 

Para essa só ha um livro — é o doente: uma es- 
cola — é o hospital. 

liOnije, bem longe do bulicio do mundo, sil^n- 



Y 



cioso, pensativo, observando e reflectindo sem cessar, 
allieio ás estrepitosas expansões da sociedade, esque- 
cido quasi sempre por essa mesma sociedade por 
quem vela, o medico, do fundo da enfermaria, escuta 
os últimos ruidos d'essa machina maravilhosa, que 
se chama o corpo, ouve-lhe muita vez o derradeiro 
estalo o reflecte.... reflecte sempre no processo de 
sua melhor conservação! 

Lá fòra tratam de arruiual-a: elle cogita em 
remediar- lhe as avarias ! 

De momento a momento vê surgir o spectro da 
morte a arrancar-lho uma victima, e, de instante a 
instante, elle, com os subsídios de sua inteiligencia, 
de suas luzes, de sua dedicação, levanta-lhe barreiras 
sobre barreiras, ante as quaes muita vez se embota 
o gume, muito embora afiado, da cruel Atropos ! 

A sociedade nem se quor o pre^sentej nem se 
quer se lembra de legar-lhe o nome á admiração dos 
séculos ! - . . 

Acha~lhe modesto de mais o papel de con- 
servar-lhe a vida! 

Ella adora o éster minio ! 

Jenner ó um pobre medico, que apenas se occu- 

pou em preserval-a da variolal... Napoleão 

um génio, um heroe, cujo nome não tem pátria 
— ^percorre o mundo inteiro ! !. 

O heroe das cem batalhas, o vencedor de Maren- 



VI 



go e Austerlitz, o temerário de Arcole, mais tarde 
heróico vencido de Waterloo — esse constituirá por 
toda a extensão dos ssculos um dos seus mais gloriosos 
padrões de gloria — o homem admirável, o semi-deus, 
o assombro da humanidade, fosse possível embora 
elevar -lhe um monumento colossal, cujo vértice pa- 
recesse, de elevado, quasi attiugindo as nuvens, e 
^sso tão somente com as ossadas superpostas dos 
milhares de victimas que, qual geuio do extermínio, 
por toda a parte a ferro e fogo elle fazia! ! 

Porem Larrey?!.... Quem acaso lembrou-s© de 
endeosal-o também? ! . . . 

Era no entanto o génio bemfazejo que passo a 
passo acompanhava o heroe do morticínio: a pensar 
as feridas que seu gladio abria sem cessar na hu- 
manidade; a regularisar os uiembros que seus canhões 
mutilavam; a consolar os feridos que seus golpes 
abatiam; a reparar, finalmente, os damnos provo- 
cados pelos milhares de balas, que vomitavam os 
fuzis de seus soldadosf 

Era Larrey! ... o génio da cirurgia, o companheiro 
obrigado das campanhas de Bonaparte. 

Era o grande cirurgião, o incansável operário 
da scieucia, o reparador das calamidades do combate! 
Mas em, não é. 

Napoleão também em, porem é ainda e será em- 
quanto durar o mundo: era, é e será o genioí f 



yn 

Larrey. era um homem necessário; lioje 

nada na memoria dos povos; amanliã como se 

nimc<a existira! 

Impossível! Desappareça embora da memoria 

do resto da tiumanidade, elle — o génio da sciencia na 
epoclia do grande liomem, elle — o cirurgião em cliôfo 
dos exércitos de Bonaparte, elle — o grande Larrey,per- 
manecerá eternamente na memoria dos filhos de Es- 
culapio,e eternamente terá um altar em cada coração!!! 

■ Esqueça-o embora a humanidade, que a sciencia 
nunca o esquecerá! 

Krupp ó também nm .génio. O génio ó creador. 
A metralhadora um grande invento. 

Esse homem terrível, que sacrifica os recursos 
de sua intelligencia, suas riquezas, a sua vida inteira 
ao aperfeiçoamento de uma maquina infernal, que 
mais enérgica, ofiScaz e facilmente vomite a destrui- 
ção e o extermínio, a morte, o luto e a dôr; esse de- 
legado do espirito das trevas, cujas forjas são ali-» 
mentadas pelo fogo de Satan; esse escorpião da hu- 
manidade idolatra-o eila ! ! 

Seu nome ó hoje universal ! 

O fumo de suas fornalhas obscurece a extensão de 
mna cidade! 

Matar muito e em pouco tempo — eis o problema 
por cuja solução elle tanto se aífadiga ! 

A humanidade applaude-o; anima-o a que pro- 



VIII 



siga pertinaz no descobrimento d'es.sa incógnita !. . . . 
A liumanidade o celebrisa ! 
E SteinliGl, o inventor da cauterisação eletri- 

ca ? ! e Heider, qne primeiro a ntilisou na arte 

dentaria?!... e Crussel que a generalisovi á oii ur- 
gia f !.. . e Marsliall e Middeldorpf e tantos outros 

que in continenti o imitaram ?! 

D^esses ninguém se lembra. Seus nomes não trans- 
põem os íiumbraes da Academia ! 

Armâtrong, Witbwortli, Snider — Enfield, Wanzl, 
WerndljMinié, Chassepot, Wincliester, Spencer, Dreyse, 
Mauser, Semington o outros passarão á posteri- 
dade inquestionavelmente. 

Dieulafoy e Potain esses ImUaram-se a 

inventar e aperfeiçoar uns tristes apparellios de as- 
piração sub-cutanea^ que avenas diminuem a dôr o o 
perigo á humanidade. 

iffelmboltz descobrio tão somente o ophtlialmosco- 
pio, Laênnec o stliethoscopio, Desormeaux o en- 
doscopio, Chamberlen o fórceps, Petit o torniquete, 
Chassaignac o esmagador linear, eto. 

Para esses não tem a humanidade um applau- 
so, a litteratura uma pagina, a poesia uma es- 
trophe!! 

A metralliadora e o fusil de*precisão bastam por 
si sós para eclipsar todo o arsenal da cirurgia ! 
E n'este caminhar vertiginoso tempo virá em quo 



a bitola do progresso social sej;i o aperíeiçoainento da 
espingarda e do canhão ! ! ! 

Muito embora! Gloriíiquern-no ou não, o medico 
nem por isso renegará a sua missão de paz. 

Elie permanecerá durante a vida inteira no hospital. 

E' o seu posto de honra, e elle não sabe transigir- 

Alli se passam scenas pathologicas tão prenhes 
de importância; se desencadeiam peripécias tão in- 
teressantes, que, obrigando o medico a observar 
attentameute, levam- no á cogitação dos mais ardi- 
losos planos para desbaratar esse inimigo terrível, 
que ás ve/es ataca mascarado para melhor atrai- 
çoar, que cae tantas outras do chóíre para mais 
certeiramente desnortear o clinico, e que surge 
muitas outras descoberto, mas repleto de torças, ter- 
rível, indomável, para mais prolundameute abalar e 
derrocar os alicerces da vida! 

O hospital faz o clinico. 

Dupuytren, Trousseau, Nólaton, Velpeau, Astley 
Cooper, Paré, Hunter, Sydenham e tantos outros, anti- 
gos e modernos — esses vultos proeminentes, que deve - 
rião constituir o orgulho da humanidade, foi lá, no fun- 
do do hospital, abraçados com os doentes, que apren- 
deram a sublime arte do curar !. . . o muitos, no pró- 
prio hospital ou no campo da batalha, teem nmita vez 
exalado o nltimo suspiro, que se esvae juntamente ao 
do infeliz ferido em cujo auxilio vinham ! 



X 



A pratica da medicina é indispensável ao cliuico. 
Eis porque a exige a l^aculdade do estudante. 

Passemos ao terceiro ponto, o capital — a tliese. 

Porque impõe a .Faculdade ao aiumno o dever 
de apresentar uma — tliese ? 

A medicina caminlia. 

O organismo, mal conhecido por Hyppoorates, pa- 
lent(3a-so maravilhoso sob o scalpello de Vesale. 

O ar não percorro mais os tubos arteriaes, como 
no tempo da medicina grega: Harvey enche-os de 
sangue^ e sob a intimação d'este génio o mecanismo 
da circulação se patenteia maravilhosamente aos 
olhos da medicina: o mysterio cede lugar á revelação, 
o ignoto ao conhecido. 

A , sciencia caminha, 

xiselli descobre a origem dos vasos chyliferos, 
Pecquet demonstra-lhes o trajecto e a terminação, 
Rudbeclc descortina os lymphaticos propriamente 
ditos e generalisa-^lhes a existência, Bartliolin e Jolyff 
quasi simultaneamente o acompanham, o Sappey, 
modernamente, continua- dhes as iavestigaoões. 

Leeuwonhoek emprega os microscópios que aca- 
bava de fabricar, e a histologia, até então ainda 
por fazer, abre novos e largos horisontes á medi- 
cina. Leeuwenhoek apresenta ao mundo medico es- 
tupefacto a primeira descripção dos glóbulos do 
isangue. 



XI 

Em uma ootiM ordem de idóas, Ambrósio Paró 
anathematisa a cauterização das feridas por armas de 
fogo e emprega pelaprioieira vez a ligadura das artérias . 

Vanzetti descobre e applica a compressão digital 
ao tratamento dos aueurysmas. 

Morton e Jackson descobrem a anestliesia etherea, 
que outros deveriam pouco tempo depois localisar. 
Simpwson abre mais largos horisontes á anesthesia, des- 
cobrliído e applicando pela primeira vezo ciiloroformio. 

Será preciso prova mais evidente dos progressos 
da medicina? 

Só por si a descoberta da anesthesia bastára 
para consolidar-llie para sempre os preciosos bene- 
fícios. 

O que haverá de mais humanitário do que li- 
vrar o infeliz doente das dores atrozes o do espe- • 
ctaculo afQictivo de uma operação?! 

Para que ir alem ? 
. Haverá quem ignore os beneíicios -prestados á 
humanidade pela medicina ? quen desconheça o seu 
progresso ? 

Modernamente não vemos os brilhantes resul- 
tados que o medico faz a electricidade prestar á hu- 
manidade? 

O que haverá de mais bollo, mais artistico, mais 
maravilhoso— que a galvano-caustiaf I 



XII 



N'i]m moincufo separa o cirurgião i^m tumor 
com uma simples lamina de platiun, quo, aoitesmo 
terapa que Incisn, vao profundamente queimando a 
íerida quo deveria resultar d'essa incisão ? 

O que haverá do mais bello, de mais importante 
o prenhe de applioaçõos que essa maquina de des- 
truição, tão diversa das quo modernamente aperfei- 
çoam os governos dos paizes cultosj porque, ao con- 
trario d'ellas, destroe para preservar, aniquila para ga- 
rantir, elimina a parte para conservar o todo ? ! 

O que haverá de mais bello na arte operatória que / 
esse apparelho maravilhoso que ó — bisturi e cautério^ 
brasa e gume, ferro e fogo ? ! 

Si volvermos a vista para outro lado: que lin- 
das investigações de pathogenia se não executam nos 
arraiaes da sciencia! que sublimidade de dedicação ! 
que imponência do talento ! que manifestação de 
génio ! e, mais que tudo, quo resultados práticos ! 

E' a etiologia animada descortinando os mys- 
terios de um grande numero de moléstias, elucidan- 
do -lhes a intrincada pathogénese. 

As sopticemias cirúrgicas, a varíola, o sarampo, 
a erysipela, a diphtheria, emflm, essas febres essen- 
ciaes de outr'ora, tão brilhantemente esclarecidas hoje 
pelos raios do talento, retemperados no crisol da ob- 
servação, não significam o progresso? ! não demons- 
tram o adiantamento? ! 



XIll 

talvez aqui oppovtuno ensejo para poreiuptuvia- 
mento domonstrur a iiifluencia díi medicina sobro as 
demais scieiícias. 

QuíU foi, na realidade, a. que mais profundamente 
anualisou e quasi quo deseobrio esse mundo dos 
Infusorios e vibrifics, esse mundo dos infmitamonte 
poquonos, osse microcosmo, onde a meão da Provi- 
dencia mosfcrou-so arcistíi tão maravilhosamente de- 
licada, quanto poderosa e iuipoueuto no macrocosmo? 
no mundo dos sentidos"? ! 

Que sciencia melhor que a medicina tem descido 
a estudara estructura cVesses animaes microscópicos, 
ás vezes simples cellulasjd'essas plantas rudimentares, 
ás vezes siuiples utrioulos, onde se manifesta prodi- 
giosamente a Omnipotência! 1 

O acariis scalnei no intimo da pústula da sarna, o 
ãomodex folliciilormn no fundo do folliculo pillosó, a 
leptothrix huccalis na bocca, o tricorJttfton tonsurans 
na ííinha toiísurante e na mentagLa, o achorían SchceU' 
Uinii na tinha favosa, a baoteric no sangue úof- 
septicemicos — quem os demonstrou"? 

Basta, porem. E' tempo já de deixarmos asMv ■<: 
ponto íiual sobre este imperíeitiasimo panegyrioo d» 
medicina. 

Do seu progresso nem ao séptico é daâo o duvidar J 

Qual, porem, o fim de tudo isto! 

Simplesmente o demonstrar que é o ma^s racional, 



XIV 



peííectida e sabiamente qim a Faculdade exige de? 
candidato, como ultima prova, que seja tamboiíi 
autor. 

Com eífeito, si a medicina camrniiaj não basta 
ao medico conliecer a iheoria, para saber a seií^ncia^ 
não ó sufficiente que saiba a pratica, isCo é, que esteia 
em condições de exercer a ciiuioa: urge também que 
seja capas de concorrer para os^ progresaos da me- 
dicina com os subsidies de sua intelligenoia e obser- 
vação. E como 1 Tornando- se também autor, revelando 
tudo quanto descobrir de interessante e util á sciencia. 

Eis a rasão porque a Faculdade exige, racionai, 
reflectida e sabiamente, como acima o dissemos, uma 
these ao estudante. 

Outra razão, porem, descobrimos ainda, qu© justi- 
fica entre nós a publicação obrigatória de uma these.. 

Grande numero de moléstias, exclusivamente^ 
nossas, estão por estudar, e, mais que tudo, a sua 
therapeutica. 

Preciso é que nos convençamos de que é tão 
fértil em substancias medicamentosas o uosao paiz 
Batal quanto ubérrimo nos primorosos fructos e flo- 
res, e nas magestosas florestas que lhe assombream, 
os prados o cobrem-lhe a enorme vastidão ! 

E' mister também que nos convençamos, uma 
vez por todas, de que a Providencia tem sabiamente 



XV 



ílisposto o bem ao lado do malj dcixaudo apenas 
ao homem o querer aproveitar-se do primeiro em 
aniquilamento do segundo. 

Entre nós devem, pois, uecossariaaiento existir os 
meios -de debellar as moléstias que nos são peculiares. 

Procuremos, portanto, o procuremos pertinaces. 

A medicina brasileira acha-se ainda na iníancia 
do progresso, a que devo o tem inquestionavelmente o 
direito de chegar. E si, n'esta e na Faculdade do 
Eio do Janeiro, teem já" rasgado as trevas da igno- 
rância os raios fulgurantes encanados de grandes 
Mestres, verdadeiramente dignos de admiração pela 
força robusta do talento como pela illustração es- 
merada e saneto enthusiasmo pelas glorias pátrias; 
si, dizemos, . o patriotismo dos Mestres, tão digno 
de imitação, tem já ousada e brilhantemente arros- 
tado os perigos da iniciativa, dardejando fulgurosos 
clarões e proclamando á mocidade o progesso, a 
discussão e a luz; si os Professores Sabóia, Caminhoá, 
Torres Homem, França e outros no Rio de Janáiro, e os 
Professores Aranha Dantas, Domingos Carlos, Faria, 
Góes, Bomfim e Sodré na Bahia teem do alto do sua 
cadeira erguido um tão solemne biado de-avante!-;si 
finalmente os Drs. Silva Lima, Fortes de Bustamante, 
Carlos Frederico, Sá Pereira, I]orges da Silva, Martins 
Costa, Ribeiro da Cunha o outros toem tão proflcuamen- 
te coufribuido para o progresso da ujedicina cora seus 



XVI 

interessantes livros, oj)iisculos ou memoriiis; si, fi- 
nalmente ó palpitante o progresso que já começa 
a manifestar-se brilhante e esplendoroso; si c certo 
que em catadupas do luz e abrazados no fogo santo 
do patriotismo — luz que não desmerece da que illu- 
mina nosso céo sempre era fulgores— fogo santo que 
é o reflexo directo do nosso sol tropical; — si assim 
em luz o fogo — luz do talento e fogo do enthusi- 
asmo— tem a sciencia pátria cam:iubado, e muito, 
cumpre comtudo confessar que é tão vasta a seara 
que apenas começam agora a roteal-a. 

A elucidação de certas questões relativas íi mo^ 
lestias próprias do nosso clima, o resultado da ob- 
servação em doentes d''cllas affectados, o meio thera- 
peutico mais eflicaz para combatel-as, o exame das 
substancias tiradas dos vcgotaes iudigenas, quo tão 
admiravelmente dobellam certas moléstia?-., sua Dia- 
neira de obrar, a delicada descrimiuação das cir- 
cumstancias etiológicas, e, íiaalmente, as estíitisti- 
cas conscienciosamente crgauisadas — ois nm vasto 
campo para o esiudo. 

iNão precisamos explorar, que talentos supcrio ■ 
res o amestrados já o íiseram: basta-nos trilhar a es- 
trada preparada pelos apóstolos da medicina, patna. 

O hospital, o azilo sagrado do soffrimento, onde 
dem.ãos dada-, a caridade e a medicina prodigalisam 
á alma o ao corpo, vergados sob o pozo das dores, o 



XVÍI 



bálsamo coasolador o salutar— e&so íliontio de he-- 
roismo:? pela íó em Deus e m\ ífcieucia, que uelle 
emana — seya a arena oude cxperimciitemos as íbrer>s, 
c o campo onde assente;ii<.)S o nosso obsin-vatovií). 

Seja esto o nosso phaaal, que nniLs lavitC será a 
nossa gloria ! 

Estudemos, poi;?, e estu (lemos mn\ ceí^sar. 

Demororaos ;ís nossas \ititas — \'i;síaa, porem, de 
medico — sobre esi>o prodigioso numero do [daulas 
medicinaes, cuja profusão rivalisa com a riqueza pro- 
ductiva do sólo, a vivacidade e colorido das flores, o 
assucarado e psriumoso dos fructos, a imponência, 
das florestris gigantescas, a varied;'ue da cures, do 
graudoza o de trin.idoò d.is aves, a nudtidãj de ani- 
Djaes do toda a espécie, do uiiuerae;;; preciosíssimos, 
fmalmeate, com a magestatica e luxaos.i impo- 
nência da natureza n'este solo abençoado ! 

A' vista d'isto bom se coinprelieuderá de que 
importância devo ser o estudo da medicina pátria^ q, 
como coiolario indispensável, necessarianoente clie- 
gíir-se-lia a reconiiecer de (pie necessidade é entre 
nós a these inaugural — b quão prudente e síibia- 
iDcntc andou a Faculdade em cxigil- a. 

Eis, cooseguintemeute; a rasão de sor da tliese. 

Quanto ao em (luo consista cila, ou deva entro 
nós consistir^ já o dissemos — sí^rá o seu maior dorão 
de gloria o ser original, o resentir-se da nacionali- 
dade a que pertence. 



XIX 

I.sto eiii relação ao qne devo Daturalraento sor: 
não foi, porem, assim a nossa; o as razões passamol « 
as a apresentar. 

Particulaniiente inclinado á cirurgia, não nos 
quizemos d'eHa affastar em nossa theso. Fomos, 
poisj oDrigado a recorrer a um dos pontos que 
nos offerecia a Faculdade na lista da secção ci- 
rúrgica, e ])reíeriraos o que faz objecto de nossa 
dissertação, por síir um dos que mais modernamente 
estão sugeitos á discussão em todos os paizos onde 
floresce a medicina, 

O estudo especial da cirurgia a que, por natural 
inclinação, nos demos durante o tirocínio escolar 
cxigia-nos também um tal procedimento. 

A cirurgia, esse martfjrio salutar, na plirase do 
uin profundo [)ensador, esse lado positivo, pratico, e, 
muita vez mesmo, mathematico dos conhecimentos mé- 
dicos, tem tanto de artístico, de interessante e de su- 
blime, que, confessamol-o sinceramente^, attrae-nos 
toda a attonção o satisfaz perfeitamente toda a sedo 
de sciencia, todo o desejo do illustração que espe- 
riineutamos. 

Outra razão ainda levou-nos a preterir o ponto 
sobro que effectivamente ríícahia a nossa escolha. 

A cirurgia não tem pátria: ó uma em toda a parte. 

As questões palpitantes de interesse na Europa 
necessária mento nos devem igualmente interessar. 



XX 



E (lomaiS; o qi-ie haverá do mais import;'mfc(3 em 
cirurgia do que o cuiativo da ferida! 

E' o facto mais commum inquestlonavGlmento 
e sobre o qual deve o cirurgião ter vistas largas, co- 
nhecimento aprofundado e actualidade scientiíica. 

Eara é, com offeito, a vez era que, diante do - 
doente, nfio tem o cirurgião que ver com o trauma- 
tismo, e, consogainteraeute — oom o processo cura- 
tivo. 

Eesiilte, realmente, a ferida de um simples ac- 
cidente, ou provenha da intervenção do operador, ó 
sempre úma ferida, e exige, portanto, um curativo. 

As questões relativas aos processos curativos do- 
minam, pois, o campo da cirurgia, e sem o seu es- 
tudo, impossível se tornará a elucidação de um con- 
siderável numero de phenomenos, que se dão quo- 
tidianamente na pratica cirúrgica. 

■ A importância da pathogenese das septicemias 
cirúrgicas, naturalmente ligadas ao traumatismo, Im- 
plica por sua vez maior somma de estudo da parte 
do cirurgião, e impõe-lhe o mais restricto dever de 
elucidação. 

Já se vê, portanto, que o ponto que escolhemos, 
jogando quasi com toda a cirurgia, reveste-se da mais 
elevada importância, e que ó tambam de interesso 
nacional, porque, do mesmo modo que na Europa, 
urge que estudemos convenientemente os traumatis- 



■d 

XXI ■ 

kios o seus variaCius processos da curativo. Eis as 
razões quo uos levaram a prcttíril-o para assumpto 
cie nossa dissertação. 

Nas proposições abria- se-uos, porém, uma opportu- 
nidade ao estudo de uma moléstia ospeciauuí.-ate nossa, 
e, de feito, uão deixámol-a escapar, occupaDdo-nos, 
como nos occupámos, do — iiieJhor tratamento ãa liy- 
pohemia intertropical — uas proposições da Secção 
Medica. 

Aqui deixamos caliir o ponto íinal sobro este já 
estirado prologo, implorando ao leitor benévola at- 
tençíão para as Insulsas paginas que se vão seguir. 



FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA 



SECÇÃO CIRÚRGICA 



Ha processo ou processos de curativo após as operações 
que Sejam capazes de evitar a infecção purulenta e a 
septicemia? 



INTRODTOÇÃO 



A' pergunta que nos dirige a Faculdade não pode- 
remos responder sem um estudo pregresso sobre a 
pathogenia das infecções purulenta e pútrida. 

E' por demais controverso o assumpto, são por 
demais contrarias ás opiniões até hoje dominantes nos 
livros (ílassicos da sciencia, as idéas que vamos offe- 
recer á sabia apreciação da Faculdade, para que demos 



2 



o tacto por conhecido e passemos immediatamente ac 
estudo aaalytico dos processos curativos. 

Partem de um principio inteiramente novo, e assen- 
tam sobre uma base apenas modernamenie estabelecida 
as theorias que arriscamos sobre a pathogenese das se- 
pticemias cirúrgicas, e seduz-nos tanto mais o assumpto 
quanto vemos a alta importância clinica que o reveste, 
e as difficuldades que cercam os primeiros passos de 
uma nova eschola que se eleva. 

As theorias que vamos apresentar sobre a patho- 
genia das infecções septicemicas, folgamos de asse- 
veral-o, não se acham ainda estampadas nas paginas 
dô um compendio; não se hmitam, pois, a uma simples 
transcripção. Objecto da observação a mais attenta, 
de experiências repetidas, a pathogenia d'essas infec- 
ções ó ainda do domiaio das lutas académicas e das 
discussões jorualistlcas. 

No meio d'esse movimento gigantesco que se 
passa nos arraiaes da medicina, por entre os lampejos 
tícintillautes do talento nos debates scientificos, no 
turbilhão arrebatado do tanta idéa imaginaria, visámos 
apenas o núcleo da questão, a base sobre que assen- 
tava todo o edifício alevantado, o circulo íixo e posi- 
tivo em cuja peripheria giravam, em desordenada 
vertigem, as mais disparatadas hypotheses. Sobre essa 
base positiva edificámos a ní-ssa theoria. 



3 



Será esse o aasumpto da primeira parte do nosso 
trabalho. 

Na segunda procuraremos estabelecer as prefe- 
rencias que, de accordo comas idéas já expendidas, nos 
merecem alguns d'eutre os diversos, processos cura- 
tivos, terminando pela respota que nos exige a Facul- 
dade. 



PARTE PRIMEIRA 



PATHOGENESE DA FEBRE TRAUMÁTICA, DA INFEC- 
ÇÃO PURULENTA E DA SEPTICEMIA 



Cette matière est grave, délicatc; je 
n'y touche qu'eti tremblant. 

(Broussais. Physiologie appUqriée à 
la vathologie.) 



CAPITULO I. 



As idéas aventurosas de Chaufifard sobre a febre 
traumática não passam de falsas concepções, de 
systematica escravisagem ao seu vitalismo sem li- 
mites. O illustre Professor de pathologia geral da 
Academia de Medicina de Pariz, no enthusiasmo de 
sua doctrina ultra-vitalista vê reacções vitaes em 
toda parte, lutas renhidas d'esse principio zelador em 
eada manifestação mórbida, e, inteiramente esquecido 
das influencias dos princípios nocivos sobre o intimo 



5 



da organisação, põe tudo á couta da susceptibilidade 
do seu principio vital sempre armado de ponto em 
branco, sempre ameaçador, sempre prompto para as 
mais renhidas lutas, apenas a menor impressão mórbi- 
da tem logar sobre o organismo. 

A revolta d'esso lidador estrénuo e o combate 
desesperado que ofíerece á causa morbigena, procu- 
rando sufEocal-a, eis para o illustre Professor o que é 
a moléstia. Não admira, pois, que, íiel á bandeira de 
suas convicções scientiíicas, bradasse alto e bom som o 
distincto pathologista que a febre traumática, não passa 
de uma reacção dessa natureza. 

Ápezar, porem, da aureola do talento e da subti- 
leza do systema, a lógica de Chauffard esvae-se qual 
leve fumo ante a eloquente palavra de Verneuil; e a 
pathogenia da febre traumática é perfeitamente filiada 
á dos grandes e perigosos accidentes septicemicos, que 
sobrevem após os ferimentos. 

Um só argumento addus^iremos contra a preten- 
dida reacção inflammatoria como brado de alarma e 
primeiro arremesso d'esse principio vital contra a van- 
guarda pavorosa da legião da morte. Dous doentes 
foram submettidos o anno passado na clinica cirúrgica 
da Faculdade ao emprego da hydrotkerapia. Tinha um 
extensa ferida por esmagamento dos dedos da mão (l); 

(l) Vid. pag. 3r das nossas « Oh.-íervaçõi:.', ãe. Clinica Cirnrgica », 



6 



outro uma fractura comminutiva dos ossos da perna, 
complicada de contusão e feridas (2). Pois bem, no 
primeiro a immersão permanente e no segundo a irri- 

* 

gação continua, preveniram perfeitamente a reacção 
nflammatoria, a supposta intervenção vital, a febre 
traumática emflm. Como explicar pois com a theoria do 
ChaufiPard factos d'esta ordem? Porque não travou luta 
aberta com o traumatismo o principio vital? Qual o mo. 
tivo da excepção? Factos como estes não são raros na 
sciencia, presenceam-uos todos os que tem pratica da 
cirurgia, e empregam nas feridas os tratamentos por 
occlusão, qualquer que seja a espécie, a variedade 
d'esses curativos. 

E', pois, outra a cansa da febre do tríiumatismo, a 
sua génese diversa. 

Um facto resultante das experiências emprehen- 
didas pelos observadores de todos os paizes, nas injec- 
ções em animaes de matérias pútridas, sangue alterado? 
pús decomposto, ou liquides provenientes das septice- 
mias cirúrgicas, quando diminuta a quantidade injecta- 
da relativamente á grandeza e susceptibilidade mórbida 
dos animaes, ó a apparição immediata e repentina de 
um apparelho febril bem caracterisado. Eis abi, pois, a 
explicação da febre traumática. Uma substancia toxica 

que unidas a um « Estudo sobre a pathagenia do Beribéri do nosso 
coUega Ribeiro da Cuiilia. publicámos no principio deste anno. 
(2) Ibid.pag. 4-í. 



7 



penetrou os lu-miaes da economia, perturbou a marcha 
(Las íuncções, ferio de perto o equilíbrio normal da 
nutrição de cada órgão, de cada tecido, de cada cel- 
lula orgânica, até onde o acarretou a massa sanguínea 
em seu torvelialio circulatório — eis a febre traumática 
em perfeita evolução. 

Alem dos factos acima adduzidos protestam solem - 
uemente contra a opinião de Ctiauffard o seguinte, 
todos os dias observado, isto ó, como muito bom diz 
Leriche (3), que íocos suppurativos extremamente pe- 
quenos determinam, ou mellior, coincidem com uma 
reacção febril geral excessivamente intensa. 

Chauffard tem seus proselytos, e até, cremos 
podel-o aiiiançar não passa elie mesmo n'esta questão 
por sua vez, de acolyto fervoroso de doutrinas alheias. 
Já Cruveiihier considerava a febre como um movimerdo 
de reacção yeraí, necessário ao desenvolvimento dos 
phenomenos locaes que se vão mostrar na ferida, e 
então engenhosamente a comparava ás febres eruptivas. 
( 4 ) Thomsou cambem já notára anteriormente que em 
algumas lesões mui graveP> a fehre se desenvolve algum 
tempo antes da apparição dos phenomenos locaes da 
injlammação. ( 5 ) 



(3) Jb'i i^uppurafhni, par E. Lrriche. Paris. 1S7~>. pag. 69. 

Bérard, Deuoiivilliers e Gussclúi. Vonipemlio tU Cirurciia pra- 
tica, pag. 312. 
(5) Ibidem. 

2 



8 



Foram estas idóas, de uliia epocha iníUutil iios co.. 
nhecimentos microscópicos, que captivaram sem duvida 
o espirito elevado e a valente opinião do iliastre Chauf- 
fard. 

Si não nos merece aceitação a theoria que aca- 
bámos de discutir, muito menos a transmissão gradual 
do movimento febril local, pela acceleração no movi - 
mento dos glóbulos sanguíneos e sua mudança de for- 
ma, a ponto de produzirem um movimento febril geralj 
theoria esta proposta por Kaltenbrunner. (6) 

Zimmermann, Simon, Montgommery e A. Cemar- 
quay, segundo Lericbe (7), baseando-se sobre experi- 
ências que demonstram que a temperatura é realmente 
elevada nos tecidos inflammaclos, concluem que basta 
a producção local do calor para explicar a febre trau- 
mática ou inflammatoria. E', bem se vê, a theoria de 
Kaltenbrunner, apenas carecendo da explicação do 
moãus facíenãi, do mechaaismo particular da trans- 
missão. 

A todas estas opiniões, ou melhor, á opinião accor- 
de de todos estes observadores, antepoz Billroth uma só 
experiência, e tanto bastou para dissipar em um mo- 
mento a especiosa theoria. Envolvendo em cataplas- 
mas quentes, cuidadosamente renovadas muitas vezes 
nas 24 boras, o membro superior de um individuo são, 

(S) Ibidem. 

(7) Ln Si(ppurution, pag. GO- 



9 



Dão poude olle observar a monor elevação da tempe- 
ratura geral do organismo (5). 

Mo ó em uma reacção d'esse supposto principio 
vital, íructo das cogitações pbantasiosas de Montpel- 
lier, nem nas transmissõqs tão grosseiras do calor da 
parte, que procuraremos a chave do mecliauismo in- 
trincado da febre traumática. Yizámos mais longe, 
partimos de uma base mais positiva, confirmada muitas 
<3 repetidas vezes no campo do microscópio, procura- 
mos a génese da febre em um estado peculiar á ferida, 
e, satisfasendo á explicação de todos os factos clínicos 
por mais diversos o multiplicados, restringimo-nos ao 
que a sciencia estatuo de positivo, fundando sobre tal 
base a nossa theoria. 

Hão ó um positivismo absurdo, attingindo as raias 
do materialismo grosseiro e inconsequente, não. Presa- 
mo-nos demais em conservar as nossas crenças ante - 
riore«, para tão de pressa destbronal-as ao sôpro letbal 
de uma doutrina abominável. Si fugimos, porem, do 
organicismo de Littró não nos atiramos fanatisados ao 
vitalismo de Chauftard. Não nos cala na mente nem a 
matrr ia pensante do primeiro, nem a dupla espiritua- 
lidade (ío segundo. 

Com o nosso illustrado mestre, o Sr. Dr. Domin- 
gos Carlo?í, diremos que « a moléstia não ó somente 



10 



nm funccionalismo mórbido, e nem tam.pnucn urna 
simples anormalidade anatómica. Ella é mais dn qn.e 
istoj porque é ao me mo tempo uma o outra cousa (9).^> 

Concordamos abertamente com o illustrndo mestre. , 
^^BQ funccionalismo raorbidO; que adniittem os que se 
accolhem soh a bandeira rôta, dcsprcsivel e miserável do 
vitaUsTão (10), naphrasc do nosso illi-rytrado mestre, o 
Sr. Dr. Eodrigues da Sílvn, não passa er.i medicina de 
uma phantasia caprichosa, mas em Philosoplua christã. 
ó uma doutrina abominável, de consc iucncias funestís- 
simas, porque é um erro permeio? o, cujos alic^^rres 
•vão inquestionavelmete enfcroncar-ge nas círconiidns 
raizGS do paganismo. 

Quanto á consubstanciaç;cão iutiuiada moléstia, com 
a lesão orgânica, que aíicará assim exclusivamente ca- 
racterisando, de modo a transíormal--a era uma simi)les 
anormalidade anatómica, essatheoria então ó oríccran- 
da. E" isto um manifesto solemne do orgauicismo ou ma- 
terialismo medico — esse systema grosseiro e regrí^ssista 
que tenta estudar o bomem na matéria, esquecendo-f e 
na obnubilação que o acommette que esiudar-sc o homem 
nhmi cadáver ó procural-o onde elle nuo existe, por q? te o 
cadáver symholisa o scenarlo d^onde desappureecu o aç- 
or ^representa um mecanismo, cujo motor suynío-se (11). 

(9) Dr. Donúiigos Carlos da Silva. Conferencias de CF^tica rh"iir- 
yiea. 187j, pag 5, 

(10) Dr. Francisco Eocirigues da Silva. TAesc liuínqural: [fíyM pr.<^ i,s 
{[í\ These citada; x>a- ^- 



11 



« Duas causas distiuctas se dovera rerordiecor no 
homem, diz o uosso lllustrado mostre o Sr. T)r. Eozendo: 
primeira, um mecanismo, ou ag'gregado material passivo 
composto de um systema de instrumentos; segunda, um 
dynamismo psycliologico, que associado ao mecanismo 
coopera no exercicio das íimcções aniraaes: a terceira 
causa ou o clynamism.o vital, admittida por alguns, 
movendo o systema de iustrumentí^s para dar iognr ás 
funcções uaturaes, deve ser exduiãa porque leva a ah-- 
surdos (12). T> 

« A conceição é a união da alma com seu organis- 
mo, diz ainda o Sr. Dr. Eozendo, o morrer ó o abandono 
d'este organismo, ou instrumento teri^estre, pela alma: 
maldição ao materialista que diz « nada ha do verda- 
deiro senão o accessivel aos sentidos, a al'ma não exis- 
te, o organismo produz o pensamento polo só effeito 
da disposição e mistura de seus elementos. « (13^ 

Acompanhamos o focto material até onde elle podo 
chegar, quando a observação nol-o demonstra, mas 
não ficamos ahi. A intervenção animica, que admitti- 
mos desde o começo, e não tão somente em um mo- 
mento dado, como succcde ao principio vital do 
illustre professor Chauífard, acompanha por toda a 
parte as impressões, e, mais ou menos oncrgicamento 

r\-2] Dr. Ivozoiulo Aprigio Pereira GíuimariXc.';. Thcsc inanr/h-yrtt; 
pag- 2. prop ,=5. 

[Vi] Ibid. pag. 6, prop. £7. 



12 



segundo condições mdividuaes, revela por sensações e 
actos inhcrente*? á vida, o gráo de intensidade com que 
íoi impressionado o espirito. 

Negando a intervenção das causas exteriores, 
desconhecendo caprichosamente as fermentações mór- 
bidas produzidas sobre a ferida, sua natureza e quali- 
dades delí^terias, systomaticamente continúa o Profes- 
sor Chnuffard a negar os phenomenos ulteriores das 
fei'mentações protozoárias ou cryptogamicas, as intoxi- 
cações sanguíneas determinadas pela mistura na tor- 
rente circulatória com os elementos figurados e o 
plasma do sangue de principies nocivos absorvidos na 
ferida. 

Com as idéas que acceitamos não nos despenha- 
mos no abysmo magnético e fatal do materialismo, 
não nos perdemos tão pouco no vago das hypotheses. 
Porque não limitamos a acção do veneno á superficie 
tranmatica; porque, acompanhando a sciencia, suppo- 
mol-o a circular com o sangue e a lezar de perto os 
pafenchymas, não negamos, o que seria estultícia, a 
intervenção da alma, e sim d'esE0 segundo espirito, 
d'esse principio vital, na manifestação dos symptomas 
observados. 

O bomeirs não ó exclusivamente matéria ou es^n- 
rito, mas essencialmente uma o outra cousa, constituin- 
do por um amplexo mystevioso g admirável um ser 
único e indissolúvel— f//w?« substancia. E' essa constib- 



13 



stanciação ios dois piincipios antagónicos que piisina 
os ignorantes, confunde os sacerdotes exclusivos da 
sciencia, e enche de sublime enleio a alma do Chris- 
tão. «0 laomem, dizia o sábio naturalista Buffon, ó com- 
posto de uma alma e um corpo muito complicado, e 
entretanto, por um admirável mysterio, elle forma um 
todo barmonico, natural e indivisivel durante a vida. » 
E era o grande Bufíon, que tão a fuudo conbecia a 
organização material dos dous reinos animados da na- 
tureza! Era o investigador attento e paciento, cujo 
scalpello penetrára as ultimas fibras do mecanismo 
orgânico e devassára os segredos do aggregado raale- 
rial, que tantos outros divinisaram ! 

Mas o Proíessor Gbauffard provavelmente entende 
a cousa de outro modo. Voltemos, pois, á questão. 

O mecanismo particular da producção da febre 

traumática é, para nós, o seguinte: 

N'uma ferida qualquer, exposta ao contacto dc 

ar, depositam-se os germens de um elemento das fer- 
mentações mórbidas dos traumatismos — micrococcus ou 
bacterie — pouco importa; as condições da ferida são 
pouco favoráveis á reproducção e reabsorpcão dos prin" 
cipios resultantes da fermentação; não existem aufrac- 
tuosidades; a ferida é regular; o pús, pouco abundante 
é espesso e de boa qualidade; a superfície denudada 
de estreitas dimensões; a vascularisação diminuta; etc. 
O íermento não acha pois bôas condições de 



14 



desenvolvimento; a reprodiicção tem logar em pe- 
quena escala; a absorpçãu pela rode lymphatica — la- 
cunas e capillareò — e pelas radiculas vasculares san- 
guíneas, é fracíi e demorada; o principio nocivo, o 
micrococcus ou a bacterie, soffre obstáculos á franca 
iutroducção ua massa circulatória. Volteando com o 
sauguc, até sua poríoita eliminação pelos emunctorios, 
perturbam estes organismos iníeriores a marcha regu- 
lar das funoções, desviara a ecouomia de seu estado 
normal de equilíbrio orgânico, produzem finalmente 
o estado geral mórbido que se denomina febre trau- 
mática, reacção inflammatoria. 

As circumstaucias que tornam ligeiro esse enve.. 
neuamento do saugue, essa septicemia, são, já disse- 
mol-o acima, múltiplas e muito variadas, mas podem-se 
perfeitamente resumir nestas duas proposições: 

1 As condições desfavoráveis ás fermentações em 
uma solução de continuidade, dimiuuindo a producção 
cryptogamica ou iufusoria, peculiar a cada sporo ou 
ovulo elementar, determinam a beuiguidade da intoxi-. 
cação sanguínea. 

2" A deficiência da rede vascular da parto, ou sua 
constricção demasiada pelo frio, tópicos medicamen- 
tosos, etc, embaraçando a nbsorpção dos organismos 
desenvolvidos na .ferida, impedem a vehemeucia da 
intoxicação sanguínea. 



15 



Estíis idéas tíobre a febre traumática^ que não 
jnis.sam de um ligeiro esboço do que mais desenvolvi-- 
damente diremoo depois sobre as duas outras espécies 
de septicemia cirúrgica, uão são unicamente acceitas 
para a patliogenia d'eâte género de aífecções. 

Todas as intoxicações miasmaticas vão ter uma 
CApIicação clara c manifesta depois da descoberta ma- 
ravilhosa das fermentações de causa animada. 

Syntheticamente coníirma esta asserção Henri de 
Parville ifeste conciso enunciado: «De hoje em diante 
ninguém ignorará mais que a infecção virulenta tem 
por origem corpasoulos sólidos.» (22) 

Cose e Feltz coníirmam taes asserções: na septi- 
cemia, na febre typhoide, febre puerperal, varíola, es- 
carlatina, sarampo, etc, o sangue acha- se cheio de para- 
sitas inferiores do diversas qualidades. 

Robin (23) n presenta a seguinte relação de mo- 
léstias, cuja pnthogenia ó hoje reconhecida inquestio- 
navelmente parasitaria. 

«Leeuwenboeck foi o primeiro a assignalar a exis- 
tência de Vibi'i(3es na ãiarrhéa. O Sr. Lebert (1845) as 
vio ua (Itjííúnteria. O Vihrío rugula foi observado nas 
dejecções dos cliolericos pelo Sr. A. Pouohet primeira- 
mente, eni 1849, e por Hassal e Eainey ( 1869 ). 

Levados pela \ apor d agoa elles (Vibriões) podem se 
achar no estado de poeira, assim como no hahto (Lemai- 

(3^) Henri de Pavrille. Ca-userí.es sdenfifirjiies. Paris.1873. pag. 47 . 
'2:5) liobin— Traité du micTO«ooi)c. 1871. pag. 931. 



16 



re), Tem-se-os vigto us. uriua fresccX da cysUtc dtroni- 
ca (Davaine); cio catarrho vesical (Ordonez); do miico do 
catarrho pulmonar (Pouchet )j do corysa ( Puucliot); uii 
otite chronica; da inflammação do sacco lacrymal o do 
conãucto nasal ( Tigri ); uas ulceras pútridas a na po- 
dridão do hospital o Sr. Lebert assigualou a presença 
de Vibriões de grandes dimensões ou de Amibes; níis 
ulcerações syphíUticas ( Doanó, 1 83G )• no liquido da 
blennorrhagia [ Tigii ]. Tigri reíere dou» casos do febre 
typhoide nos quaes poudo ver o sangue povoar-se do 
infusorios do género Bacterium . 

Os Srs. Coze e Feltz acharam na mesma moléstia 
o infusorio Bacterium catenula. Estes observadores 
verificaram do mesmo modo a existência de Bacteries 
no sangue varioioso, e poderam da mesma maneira 
inocular esses infusorios em coelhos [B. termo e B, ha- 
cillus.l O Sr. Davaine toi o primeiro a indicar a bacte - 
ridie [ Leptotrix huecalis, Ch. Kob. | no sangue do 
homem e dos animaes affectados de sang de rate, de 
carbúnculo e de pústula maligna, assim como no liquido 
soroso ou purulento das pústulas e tumores carbunculo- 
sos. Suas experiências levaram -no a admittir quo estas 
hacteridies são os únicos agentes do desenvolvimento- 
da moléstia carbunculosa. 

Na forma do carbúnculo de certos ruminantes, 
chamada mal das montanhas, acha,n-se os mosmoâ 
■ infusorios. j Commissão de 1868 [, 



17 



Os Srs. Signon e Mégnin eiicontraiam as bacterieB 
i;í- saDguo dos cavallos atacados da moléstia cliamada 
febre typhoiclej) 

ÁS ultim as experiências de Chai vean sobre a vacei- 
iia acabam de comprovar ainda aa idéas, da intoxicação 
pelos proto-organismos. Como se sabe o desejado ])remio 
Bréaut, de 100:000 francos, deve pertencer ao feliz mor- 
tal (Uie « descobrir o moio de curar o cholera asiático ou 
que tiver descoberto as causas deste terrível flagello. » 
Desde lSo4 que, á mingoa de descobridor, tem-se visto 
obrigada a Academia a conceder apenas a renda do 
capital a quem mais se approxima da questão. Este anno 
coube a somma a Chauveau que muito se tom occupado 
com as moléstias virulentas. 

Copiamos esta noticiada obra de Henri de Parville 
acima citada, e ainda pela leitura que d'ena fizemos 
apresentíiremos o resumo das conclusões de Chauveau. 

Eeferem-se ellas á vaccina. Composta de sôro e ele- 
mentos figurados deve exclusivamente a estes últimos 
a vaccina as qualidades que todos lhe reconhecem. E- o 
resultado dos estudos do hábil experimentador do 
Lyon. 

«Ajuntando agoa á vaccina, diz Henri de Parv^ille, re- 
ferindo as observações de Chauveau, as granulações viru- 
lentas se separam e depositam, deixando acima d'ellas 
uma camada inactiva. Agitando-so, porem, o liquido, 
as granulações se espalham e communicam a todo 



18 



elle propriedades virulentas. Vaccjiia diUriua em 50 
vezes seu pezo d'agoa é tão certa em sua acção quanto 
a concentrada. O Sr. Cliauveau conseguio niesuK) vacci • 
nar, de uma maneira constante^ com vaccina diluída 
em 50 vezes seu pezo d'agoa. » [24j 

As investigações do illustre experimentador ri im- 
cez, que com seus estudos positivos tanta luz tem 
derramado na sciencia, não pararam no liquido vac- 
cinico. O do mormo e da varíola, sujeitos ao cadinho 
de sua acurada observação, deu os lucí^mos resultados: 
virulência residindo nos corpúsculos elementares. 

'No capitulo seguinte, a propósito da infecção puru- 
lenta, estender-nos-hemos mais sobre os organismos- 
fermentos productores d'estas intoxicações, era relação 
á sua classificação, etc. 



(•24) Obr eit. pag. 16, 



CAPITULO II. 



Qual to venenO')^ a ímiateries '})iorhii, a cansa cffi- 
ciente da febre suppurativa? Onde se desenvolve, em que 
cot%ãições e debaixo de que forma penetra e se reprodu 
esse veneno na economia? Eis outros tantos proUemas 
que carecem ainda de solução. 

Com estas memoráveis palavras encerrava em 1870 
o illustre cirurgicão ingle/, Braidwood o seu capitulo 
sobre a etiologia da iafecção purulenta (20). 

O nome do distincto cirurgião da Eãinhurgh Royai 
Infirmary e a sua proficiência na matéria, resultan.te de 
um estudo acm^ado e minucioso sobre um avultado 
numero de factos bem observados, dlspensão qualquer 
outra recommendação, para que sejam consideradas 
como um juizo recto e imparcial sobre o estado da 
questão que nos agita, as expressões textuaes que 
acima transcrevemos. Toraa se escusado pois um lon- 
go histórico, cujo valor intrínseco se resumiria em um 
desmentido recipr;-co de todas as theorias emittidas 
até bem pouco tempo, conservaudo-se sempre como um 
ponto escuro na scieucia o facto patliogenico estudado. 

(-25^ Vid. Braidwovil - De. l<i. pi/oh»u%ic ou /iéifre supjmralioe. 
Fáris, 1870, pag. 'J5«. 



20 



llnlui razão e niuito o hábil obserrador inglez 
quando assim i)atenteava com a franqueza scientiâca 
o atraso nianifesto da scienoia do seu tempo. Si hoje 
fullára modificaria inevitavelmente o auctor o seu juiso 
derluitivo, e na expauFã;) do enthusiasmo elevaria bem 
alto o eureka da ciriirgica hodierna. 

Cahio uma extensa porção do panno de muralha, 
que espesfvi íí negra como as trevas, impenetrável ao 
scintillante olhar do próprio génio, resguardava das 
vistas dos obreiros da scienoia o magestoso painel, onde 
em traços doirados resplandecia a iaiagem da verdade. 

Si }i(\je não ó dehnitivo o resultado, si ainda resta 
a yeriíicação de muitos íactos, o principal, a base do 
systeraa indefectivel, firmada nas solidas conclusões da 
experimentação de todo o dia, está, não ha duvidal o, 
completamente estatuída. Os contornos, as variantes, 
os relevos e as sombras, esses virão depois. Por agor^ 
o tacto capital, e já é muito. 

Não discutiremos questões de primada na des- 
coberta o applicação do principio fundamental ao es- 
clarecimento da pathogeuia das infecções septicemicas; 
nem ha proveito para a nossa elucidação era resposta 
á Faculdade, nem do perto nos impressiona a discussão 
de tal assumpto. 

Partamos de^ um ponto determinado- a magnifica 
theoria da fermentação, estabelecida pelas investiga- 
ções pacienteis do Pasteur. 



2i 



Depois que o illustre chimico íranoí^z dernoustrovi 
qu6 os phenomenos da fermontação crão devulos á 
raultiplicidade de myccdiíieas e aniraalciiloá, rayida 
mente desenvclyidos no liquido feruientado, ein virtude 
da evolução de myriadas dosporos ou óvulos que acha- 
vam no mesmo liquido as exigidas condições de desen- 
volvimento, depois, digo, que estas Idéas conquistaram 
após serias e renhidas discussões o logor úe honra, 
que lhes competia nos livros clássicos da scieucia, os 
ciliares dos práticos de todos os paizes se volveram 
para as moléstias zymoticas, onde lhes pareceu entre 
verem a existência de uma verdadeira fermentação 
mórbida, muito semelhante á que se passava e era cui- 
dadosamente examinada no laboratório do chimico. 

Milhares de experiências se instituíram em diffe- 
rentes pontosj a observação cliuica dobrou do activi- 
dade, e 08 prelos dos paizes adiantados gemeram sob 
o pezo de noticias, memorias, communicaçõe», etc, que 
à porfia se apresentavam, exigindo a primazia da des 
coberta e soltando o curoka piematuro, tantas vezes 
desmentido. 

As Sociedades o Academias de scioncias, occupa- 
ram-se com afan da novidade do momento, e a dis- 
cussão foi calorosa, foi longa, pois que ainda continua; 
mas não tem sido exuberantemente explicativa. 

Qual o resultado de todo este trabalho exage- 
rado, d'essa luta homérica, d'esse investigar do todos 



22 



os monientos ? O que diz o microscópio, o quô refere 
a clinica, o que concluem os práticos e os experi- 
mentadores! 

De positivo, de certo e determinado— alguma 
cousaj de completo, de diíinitivo, de explicito em re 
lação a todos os casos^ de determinativo em todas as 
minudencias, de real e inatacável em referencia ao tra- 
balho pathogenico era toda pua extensão, de verdade 
emíim. applicavcl a todo o estudo mcetado sobre as 
infecções que nos occupam — ainda i)ouco. Sim-, os ele- 
mentos, a base da verdadeira tlieoria, parece-nos, estam 
estatuídos; as espiicações ultimas, o moãus facienãi do 
principio fermentescivel, suas evoluções no fundo do 
organismo, as particularidades certas e determinadas 
de sua introduoçfxo e eliminações, sou gráo de viru- 
lência, sua forma, qualidade, variedades, e até a 
technologia scientifioa correspondente — isso não: ó 
assumpto ainda de estudo muito aturado, e s©l-o-lia 
talvez por longo tempo. 

Já a maior [ràvtQ dos pathologistas, já a quasi 
totalidade dos experimentadores, já grande numero 
de clinicos esclarecidos, acceitam e defendem a tbeoria 
da fermentação séptica, como fonte primitiva da infec- 
ção purulenta. 

Qual seja a substancia íbrmentescivel cumpre agora 
elucidar. 

Eis o dédalo ojido se perdem nas mais multiplica- 



das e differeiJtes direcções os mais ousados experi- 
mentadores do todos os paizes. 

E' uma monaãa exclamam alguns; mas o que ó 
monadal Não é por certo a monada de Pythagoras, a 
causa activa da oreação, isto é, o fogo ethereoj porem, 
sjm um género de infusorios cellulares. A familia dos 
mouadianos coraprehende duas variedades: a mouada 
espherica (Monas leus, Ehr.) e a monada ovóide ou 
cylindrica (Monas elongata, Diij.) Segundo Littrc e 
Kobin (26), habitam as monadas a agua doce, e a salga- 
da por muito tempo conservada, as aguas dos pânta- 
nos, diversas infusões, detritos de matérias animaes e 
vegetaes, etc. São incolores e muito transparentes, e 
dotadas de um oriâcio buccal, destituído de cilios ou 
pellos, visível apenas em uma ou duas espécies. 

A monada não foi geralmente acceita; alguns a 
regeitaram, preferindo o vibrião. 

O que será, pois, um vibrião ? 

Animal para uns, ó para outros vegetai o vibrião. 
Aos primeiros pertence Ehrenberg, que, segundo Littró e 
Robin, constituo com elle o género hacterie, sendo que 
para estes últimos não passa o vibrião de uma i)lanta 
do género leptotrix. 

Não é para admirar o desacordo que separa os 
observadores em relação á natureza intima dos vi- 
briões, porque, seres infi.nitamGute pequenos como são, 

f-Jtí] Littré e 'RÓhm—Diec. demcd. 18/4— pag. í)76. 

4 



24 



e situados nos extrcioos dos dous reino?;, devem no - 
cessarlamente os cryptogamas einfusorios semelhar-se 
até a confusão. O nosso illustrado mestre, o Sr. T)\\ 
Bomíim, assim se exprime a propósito d'este assumpto: 
« N'esae primeiro gráu de organisação das plantas é 
que parece haver um poncto approximada eindistiucto 
entie o reino vegetal e o reino animal. Com efíeito^ 
por seu turno a Zoologia nos mostra animaes unicel- 
lulares, que apenas differem da cellula— planta por 
apresentarem movimentos variáveis, e coava que es- 
pontâneos |'27j. » 

Quando no estado de ovulo ou sporo, segundo a 
opinião que se queira admittir, constitue o vibrião o 
microzyma d© Bechamp, Estor e Caizorgues, ou o 
micrococcus do Hallier, Cohn e Bircli — Hirschfeld . 

Caizergues afíiança ter visto no campo do micros- 
cópio os microzymas se reunirem aosdous, aostres, etc, 
formando verdadeiros rosários-, depois desapparece- 
rem os septos resultantes da adaptação dos differen- 
tes glóbulos e constituir- se a bacteriãie, a hactcrie, etc. 
O mesmo observador afQrma ter presenceado, com 
um augmento considerável, a desaggregação de uma 
cellula em um numero elevadíssimo de microzymas^ 
e, em outra occasião, a agglomeração regular e pro- 
gressiva' destes elementos, dando em resultado a for- 
mação de uma cellula. 

r27) Dr. Antonio MariaTio no Bornfim. Elementos dc Anal, Phys. e 
Morph. vegetal. Buliia. 1873. Fascículo l°.pag. rJU, 



Consitlora-se fioalmente como pertencendo a-o 
$;pnero vibrião o spiriUo, assim denominado em razão de 
su;i forma em hélice, sobre cujo eiso executa ura 
movimento spiroide. O vibrião é, pois, micrococcus 
!>.! microzyma quando no estado de sporo ou ovulo, 
e bactorldie, bacterio e splrillo quando já desenvol- 
vido. O micrococcur) é apenas dotado do movimento 
browniano, como todas as granulações raoUeculares 
de 4 millesimas domillimetro para baixo, deslocando - 
se na extensão de 4 ou õ vezes seu diâmetro em um 
sentido, depois u 'outro, porem sem progressão [28]; a 
bacteridie e a baeterie apresentam movimentos pró- 
prios; o spirilio descrevo um movimento spiroide em 
torno do seu diâmetro. 

E' o vibrião, pois, o organismo-fermonto produ- 
ctor da fermentação mórbida, desenvolvida na ferida. 
N'ess6 ponto são concordes quasi todos os observa- 
dores, residindo apenas as divergências em attribui- 
rem uns a uma das espécies do mesmo género vi- 
brião os phenomeuos de tal fermentação mórbida, e 
outros a uma espécie diíierente. Provem talvez isso 
de não lia ver ainda ura accordo geral na technologia 
própria., resultando d'ahi serem conhecidos organis- 
mos da mesma natureza por denominações diversas. 

Conh propõe e Birch-Hirschfeld acceita a seguinte 
classificação: 

[38] Lith-c # líobia— Dicc. (Is med I8K8, pag. Í89. 



Divide oUe em quatro grupos todas as bacterie?? 
conliecidas, que vem a ser os vibriões de Ch. Eobin: 
1" as hacterks esjjliericas, tendo apenas uma espécie 
o micrococcus, que é immovel. Apresenta este tres va- 
riedades em sua disposição, que importam, differenças 
notáveis na conformaçcio; assim temos: 1" micrococ- 
cus agrupados e affectando a forma de rosários; 2" 
agglomerações simples, denominadas coJonias; 3" gru- 
pos de micrococcus agglutinados por uma substancia 
intercellular, constituindo as — zooglcca. Si bem que 
fermentos os micrococcus não produzem, para Cohn, a 
putrefacção; elle os divide segundo sua activid/ide 
pbysiologica em chromogenos, ^ymcgenos c patJwgcnos, 

O 2° grupo de Cohn comprehende parasitas cy- 
lindricos, que, ao emvez dos micrococcus, apresen- 
tam movimentos próprios: são as bacteries (Stoebchcn — 
hacterien) do autor. Coliu adn itte duas espécies: 1" o 
bacterium termo, principal agente da putrefacção; 2" 
o bacterium Uneola. 

O terceiro grupo, ãesmobactería, comprehende 
o bacillus e o vihrio. Em synopse: 




rosa no 

colónias 

zoogloea 



3? Desmoba- S Bacillus 
cteries J Vibrio 



27 



Entremos agorit^ pois, em pesquizns de outra or- 
dem, e determinemos a espécie productora de cada 
uma das infecções — pútrida e purulenta. 

Apezar de dedicarmos um capitulo especial a 
cada uma d.'estas infecções, somos comtudo obrigado 
a tratar conjunctamente de alguns factos elementares. 

Isto, porem, nos preparará para o estudo geral 
que houvermos depois do fazer sobre a septicemia 
110 respectivo capitulo. 

Antes, porem, de qualquer experiência tendente a 
esclarecer a intrincada pathogenia das septicemias 
cirúrgicas (29), estudemos a acção do pús de bôa na- 
tureza, afim de u elhor estabelecermos as difiereuças 
de cção do pús putrc feito. 

Já Burdon-Sauderson, no Appe^zdice to the 13 
Beport of the medicai officer of the privei/ Council, o 
dissera, quando Bircli — Hirsclifeld comprovou por 
suas experiências — que o pús de bôa natureza não 
contem bacteries. Para este ultimo autor é, pois, axio- 
mático — que toda a ferida cujo pús apresenta bacte- 
ries vae caminiiu da gravidade. Quanto mais aug- 
menta o numero dos parasitas, e mais exteusa, aníVa- 
ctuosa e apta á absorpção ó a ferida, tanto maior a sua 
virulência e graves os accidentes que devem sobrevir. 

f"29] Acceilamos a palavra septicemia na accepção genuina do termo, 
de sépticos, que por sua vez vem de sc})ein corromper, e aiwa, sangue. 
As septicemias cirúrgicas são, pois, jiara nós as alterações profuu das 
do sangue, consecutivas ao traumatismo; são a febre traumática, a pyo- 
liemia e a infecção pútrida, etc., estados aliás bem diííercntes uns dos ou- 
tros. 



28 



Já tVaqui go deixa ver que o ek-mouto bactciio ' 
desconhecido na siippui-af^ão de boa natureza, ó a 
causa efficiente do aggravamcnto da moléstia, quando 
sua apparição se manifesta na ferida. Continuando em 
suas experiências verificou reais o mesmo osperimen- 
tador que, eni boas condif/ões de absorpção, liavia 
exacta correliição entre <x quantidade de bacteries 
es[)alhad;is pela ferida o as contidas na massa san- 
guiuea, acliaudo se na raosma proporção o gráo de 
estragos produzidos pelo fermento absorvido; em re- 
sumo; quanto mais bacteries na ferida— sendo boa a 
absorpção— maior numero no sangue e mais intensa a 
infecção. 

(Jm outro facto resultou das experiências de 
Birclí — Ilirsclifeld, e foi: (lue i)lem da presença das 
bacteries uo sangue eucoutra se igualmente um as- 
pecto granuloso dos glóbulos brancos, sendo esta 
condicção talvez a uuica que se observa quando a 
ferida api escuta más condições de absorpção. 

Chamamos a attenção para esíe estado particular 
dos glóbulos brancos, que justificará mais tarde uma 
idéa que havemos de enunciar sobro a infecção puru- 
lenta. 

As idóas do Birch-Hirschfeld podem em defini- 
ti\a sor resumidas no seguinte extracto que à'ellas 
faz Klein (30.) 

(:10) Kevne des sdcnccí m6di'.'ales de líajcm, t. II,p. --1026. 



29 



« o autor, regeitando a opinião de Kleha, segundo 
a qual teria a suppuração por causa única a presença 
de um parasita, considera como adcjuirido [)ara a 
sciencia este focto aventurado por ura certo numero 
de autores: que as qualidades do pás variara com a na- 
tureza dos parasitas que elle contem. O pús de bôa 
natureza, alem de suas qualidades pb^sicas reconhe- 
cidas, se distingue pela ausência das bacteries ou 
quando menos por seu numero mui restricto. O pús 
pyeraico contem principalmente bacteries esphericas) 
que são as únicas reconhecidas capazes de produzir a 
pyemia. Desde que esta variedade do pús se putrefaz, 
as bacteries esphericas dão lugar ás cylindricas (termo) 
e n'esse caso o resultado di) injecção vem a ser a sep- 
ticemia.» 

Um gran.de mimero de experiências serve de 
base á theoria de Birch, que também é de Cohn e ou- 
tros; o autor divide- as em tres series. 

Na primeira serie de experiências injecton-se pús 
de boa natureza, em pequena quantidade ["uma gotta 
de pus diluída em tres a fiuatro d'agua distillada fer- 
vida], em coelhos. Estas injecções ou foram comple- 
tamente innocentes, ou não produziram em outros 
casos mais que uma areola inflammatoria em torno da 
picada, com ou sem movimento febril. 

A segunda serie de experiências teve por objecto 
o pús de má nutureza, contendo quantidades variáveis 



30 



(lo bacteries. A morte sobreveio quasi sempre, maia 
ou menos tardiamente; apenas um animal sobreviveu 
á infecção, mas teve um grande abscesso e febre por 
cinco semanas. Os casos de infecção mais intensos 
eram devidos ao pús contendo bacteries em colónias 
(2"? espécie do 1" grupo, na classificação de Cohn que 
acima transcrevemos]. Raras vezes excediam os aui- 
maes o 14" dia depois da injecção. 

A terceira serie de expeiiencius foi feita com pús 
pútrido, isto é, conteúdo em gi'aude quantidade as 
bacteries da putref acção . Em um caso em que o pús 
continha ao mesmo tempo as bacteries termo e os 
micrococcus, o autor uotou symptomas que elle clas- 
sificou do uma septi-pyliemia. 

Notou mais Bircli-Hirschfeld que o pús de uma 
ferida pyemica [isto é, contendo grande numero de 
micrococcus] pode ficar por muito tempo sem apre- 
sentar bacteries termo, quando ao abrigo da putrefa- 
cção. Injectado no estado fresco dá este pús lugar á 
pyemia. Si, porem, dotermina-se a morte dos micro- 
coccus, submettendo o liquido, ao abrigo do ar, a uma 
temperatura de 12° a 20" c, nenhum accidento mais se 
mauiíesta no animal após a injecção. 

Todas as vezes que o pús continha bacteries ter- 
mo e Uneola, os resultados da injecção eram os mes- 
mos que os produzidos pela de uma substancia em 
putreíacção. 

D'estes trabalhos pode-se auferir que as conclu- 



31 



sões Co Bii-cli — Hirschfeld são susceptíveis de redu- 
zir-sc ás sogiiintes proposições: 

1* O micrococcus (l" grupo de C.) é o agente pro^ 
diictor da pyolienrla, quando introduzido na massa da 
circulação. 

2^ As hacterles termo e lineola (1* e 2* exp. do 2? 
grupo de O, girando livremente com o sangue, são o 
elemento productor da septicemia. 

Cohn partilha em parto as idóas de Bircli — Hirs- 
chfeld: para olle obacterium termo é o agente da pu- 
tL'efacção. 

Outros, porém, combatem essa opinião, 
Kleba afctribue a infecção septicemica ao micros- 
poron septicum (baoteries arredondadas). Orth aos vi- 
briões allongados, muito moveis, que aliás outros con- 
sideram inteiramente inofíensivcs. 

Esta desharmouia tende, porem, a desapparecer; 
Klebs pensa que seu microsporon septicum ó talvez 
nma forma pouco adiantada do bacterium termo. Colin 
não admitte de modo algum que bacteries espliericas, 
taes como o microsporon septicum, possam se achar 

ligadas á putrefacção. 

Feitas estas ligeiras considerações, passemos á 
applicação dos resultados obtidos á patliogenia da 
infecção pm'ulenta. 

Começaremos por apresentar, ainda que resumida- 
mente, a bolla theoria do nosso distincto compatriota 



e collega, o Sr. D. A. Martins Costa, o que se encon- 
tra em sou primoroso trabaliio sobre a « Pyo/:^enia ou 
Memoria sobre a génese do pús no orgauisnuo" ultinja- 
mente publicada no Kio de Janeiro. 

De nosso obscurantismo damos os parabéns aa 
distincto collega do Rio que tão brilhantemeute inceta 
seus trabalhos scientiíicos. A medicina pátria caroço d© 
subsídios reiteradosj. tem necessidade da concurreucia 
de tanta illustração medica, que, infelizmente, não 
quer, por ogoista negligencia, transpor os bumbraes de 
sua actualidade. 

O distincto autor da «Pyogeuia», o Sr. Martins G0stc% 
Q.ue revelia, a par de grande talento e li tteratura me- 
dica, a maior dedicação á soieucia, reunio em seu ex- 
cellente trabalho, que merece ser attentamente lido e 
consultado, o correcto da phraze á concisão e clare/a 
do stylo, exoruaudo tudo isto — o que é da maior valia 
e necessidade entre nós — com um matiz de originali- 
dade que aiada mais recommenda a sua Memoria já 
por tantas razões Interessante. 

O talentoso académico continuará certamente a 
mimosear-nos com os primorosos traços de sua bem 
aparada penna, resultando d'aM aem duvida d'ora 
avante paginas tão instruotivas como as que gostosa- 
mente lemos em sua « Memoria sobre a Pyogenia >» 
Sabemos quão árdua ó a tarefa o espinhosa a estrada 



3S 

IX desbravar, naas confiamos bastante em seu talento e 
iilustnuão, tão altamentD estimulados pelo ardente 
■desejo do engrandecimento da sciencia pátria. 

Antcs|_dc espôr, porem, as idéas do nosso illustro 
coiIeg;i, seja-nos licito prerouir o leitor a respeito do 
modo poiHiue comprehende a génese da suppuração o 
autor d'essa memoria. Em quatro concisas proposi- 
ções resume o Sr. Martins Costa todo o trausumpto 
das idéas que apresenta no decurso de seu trabalho. 
Eil-as: 

«1'.' O glóbulo do pús ó o leucocyto [glóbulo branco 
do sangue, glóbulo lymphatico). 

2^? Os leucocytos atravessam as paredes dos vasos 
venosos o lymphaticos^de pequeno calibre para cons- 
tituírem o pús. 

3" Os corpúsculos do tecido conjuuctivo são lacu- 
nas onde originam- -se os vasos lymphaticos, e sua 
ruptura é uma das principaes causas da suppuração. 

4=? Os adstringentes, sobretudo o tannino e o 
acido gallico, e os tónicos reconstituintes formam a 
t herapeutica que deve ser empregada nos casos de 
5U]:'puração [31J.-» 

Admittindo « o pensar de Eeckliugbausen e d'eSBa 
pleyade brilhante de talentos allemães que, por meio 
de accuradns observações e de uma lógica vigorosa 

|Si] Msrtins C> ?ía. Pyoqenia ou Mancna sobre a génese do inli no 
organismo. Rio de Janeiro. i871. pag. 11? e ll§. 



34 



teem combatido e em parte derrocado as idéas exa- 
geradas da escola de Vircliow, » como diz o autor da 
^Pyogenia», elle não duvida reconstruir sobre esta base 
os alicerces de uma nova doutrina^ que, se não con- 
seguir acaso os foros d ) verdadeira confirmação das pos- 
teriores investigações, pode inquestionavelmente pre - 
tender, porque os merece, os de engenhosa e bri- 
lhante theoria, digna de serias e repetidas reflexões. 

Ampliando, pois, a tlieona de Cohnheim, formúla 
assim o autor as suas idéas sobre a suppuração: «O púa 
é formado pelos leucocytos que atravessara a parede 
dos capillares sanguineos e lymphaticos, o que saliom 
da circulação lyrapliatica, quer depois da ruptura da 
membrana envolvente do^ corpúsculos de tecido con- 
junctivo, quer por meio das aberturas que fazem com- 
municar francamente esta circulação com as cavida- 
des serosas. » 

Voltemos á pyobemia, e ouçamos ainda o mesmo 
autor: «Gomo o Sr. Ilenri-Eendu nós entendemos quo 
é ella [a pyobemia] resultado de uma infecção dos gló- 
bulos brancos do sangue. Sabe-se depois das investi- 
ga-ções de Cohnlieim, que esses glóbulos lixam partí- 
culas Kcnsiveis do vermelhão e azul de anilina; ó por 
tanto muito natural, que possam também fixar a sub- 
gtin(?ia séptica que origiua-se, pela decomposição do 
pús, no organismo. » 

Mais adiante contimía o autor: 



« Os glóbulos brancos do saDgue traiisíbrniados 
mn coiiductores do principio séptico irão dcslribuir- 
S8 em órgãos distantes, produzindo, como nos casos 
ordinários, os íocos pnrulenlos que se encontram nos 
cadáveres dos individuos mortos d'essa affecção. » 

Continuando no estudo da ])atlKigenia da infe- 
cção purulenta, apresenta o autor dons factos o sobre 
elles raciocina do seguinte modo: 

« Sabe-se, e nós já tivemos cccaf-ir.c de úv/qy, qv.e 
depois dô abundantes perdas parguincas, de abslinen- 
cia, de affecções debilitantes, o numero de glóbulos 
brancos do sangue augcnenta excessivamente no or- 
ganismo. Ora, os nossos doentes soíireram largas bo- 
morrliagias, portanto houve n'oiles .augmento dos gló- 
bulos brancos, e a substancia análoga ao pús, que eu- 
coutramos na aorta, o ostá demonstrando. Esses gló- 
bulos com a facilidade que possuem de impreguarem- 
se de substancias cstranlias, absorveram o principio 
séptico do piís ora decomposição. 

Percorrendo o apparelbí) circulatório iam elles 
commuuicando aos pontos por onde itassavam o prm" 
cipio séptico quo continham, mas, como to da a sub- 
stancia perniciosa lançada no organismo tríi?;, como 
consequência natural, uma reacção, a[)}iarcceram en- 
tão os calafrios, suores, otc, que a traduzem. Porem 
não sendo essaroacção bastante enérgica para expellir 
o principio séptico, este contiiuia a infeccionar e ir- 



36 



ritar os c rgiÃos por onde p.^ssa. Uma contracção e re- 
laxação desiguivl dos nervos vaao-motores faz appa- 
recor ondnlações nas paredes vascnlares. Ha então oní 
alguns pontos estáse sanguínea nos capillares, os gló- 
bulos l)r;)DCOs transpõem as paredes d'esses vasos e 
vão constituir íocos purulontos. E' por isso que na 
autopsia segunda encontramos fócos purulentos nos 
rins, pú^ na urina, infiltração purulenta da meduUa do 
fémur, otc, 

O pús encontrado nas articulações, julgamos ser 
proveniente de um derrame de leucocytoa dos vaso« 
lympliaticos que ahi se abrem ou, por outros termos — 
que communicam livrem-juto com essas cavidades 
sorosas; porem, como por essas aberturas podem tanto 
entrar como suliir leucocytos e liquides, vemos algu- 
mas articulações completamente seccas e luzidias: 
liouve reabsorpção de synovia. 

Os auotores citam ainda casos em que se tem 
encontrado derramamento de pús nas cavidades- pleu- 
riticas, pericardiea e peritoneal. Esses derrames devem 
ser explicados pelo mesmo meclianismo que preside 
aos derrames articulares. » 

São estas as idóas do illustre collega sobre a pyo- 
bemia; Vamos demorar-nos um instante em alguns 
reparos quo nos parecem necessários. 

Acceitaudo a esif-fcencia de um principio toxico 
deletério, e até certo ponto volátil, para cuja exis- 



E7 



tencia busca o autor provas em uma syueope de que 
foi atacado A. Paré, descobrindo o leito de um pesii- 
fero, para curar-líio um bubão na virilha e dous 
carbúnculos no ventre, e em uma pneumonia de quo 
foi victima Boérhaave, devida á exhalação pútrida da 
ourina coutida por alguns dias na bexiga de um in- 
dividuo, em quem esse cirurgião praticara o cathé- 
terismój acceitando, dizemos, a existência d'esse prin- 
cipio séptico deletério ou substancia perniciosa do pús5 
alterado, até certo ponto volátil, não nos diz o autor de 
que natureza é esse principio, qual a sua íórma, gé- 
nese, propriedades, dimensões, etc, dando apenas a 
entender com o até certo ponto volátil ser o principio 
toxico de natureza gazosa. 

E' uma falta de que se ressente a brilhante theoria 
e que entendemos pode ser perfeitamente eliminada, 
tornando-se assim a opinião do coUega a mais acceitavel 
no estado actual da sciencia, e pondo se-a d'este modo 
de accordo com as experiências de Greveller e Hueter, 
com a opinião de Henri-Huchard, em definitiva con* 
a theoria quasi universalmente acceita do fermento 
organisaão. 

A ausência da bacterie ois o senão da theoria do 
Sr Martins Costa. 

Com os conhecimentos modernos de microscopia, 
desenvolvidos principalmente na França e na Allema- 
nha, e com a serie ininterrompida de experiências quQ 



38 



alli se fazem, é lioje impossível deixar de attribuir um 
papel iLiiportantissimo aos organismos-fermentos na 
Xjroducção das sepiicemias, taes como modernamente 
se as compreheude, isto é, ua accepção que lhe demos 
em uraa nota á pag. 27 deste humilde trabalho. Ca- 
lando, porem, a acção, d'esscs uiicrozymas napathoge- 
nese da pyliemia, commettea o nosso colloga uma íalía 
tão seusivel que rouba á sua tbeoria o brilhautismo da 
côr da epocba e a íixidade de uma base positiva, 
cuja alienação é d'ora avante ura impossível. A tlieoria 
das fermentações, explicada por Pasteur, coustitue um 
d'aquelles factos extraordinários da sciencia, sobre 
os quaes passara os séculos vindouros como simples 
espectadores, que apenas tem que applaudir a descober- 
ta realisada. ]Sr'esta -batalha — que felizmente travou-se 
na arena scientifica, onde o resultado é mais seguro 
e a luta menos sangrenta e odiosa — coube inquestio- 
navelmente a Victoria á França, apezar da autocrática 
iDÍluencia scientifica da rival abatida — a orgulhosa 
AUemanha. Liebig cedeu terreno a Pasteur, e os 
florões do triumpho glorificaram d'esta vez a fronte do 
grande chimico franoez^ endeozado na pátria e applan- • 
dido no próprio paiz de seu rival doutrinário. 

O nosso distincto collega, pois, não devia ter 
omittido quo as fermentações da ferida, provocadas 
por uma causa organisada e viva, são o ponto de 
partida das infecções septice micas. 



39 



Se assim o fízera uão necessitaria do uma hypo- 
tbese, de uni fluido, para sua explicação, aliás bem elabo. 
rada, do maoaaismo geral da pyoliemia; o a sub- 
stancia quo elle sappõe iuclusa uo glóbulo brauco 
seria eutão o próprio formeuto, que, parando nos pa-^ 
renchymas mais delicados, daria lugar ás alterações 
quo todos reconhecem. 

Não se assustem os propuijiiadores da theoria ex- 
clasivamento chimica da infecção purulenta com este 
nosso enunciado, porquí3, por admifcfcirmos a iutiiiencia 
do veneno vivo, não negamos a acção dos gazes ou lí- 
quidos deletérios produzidos, antes damos a causa 
de sua immediata formação. 

O fermento, parando nos parenchymas, produz 
fermentação, isto é, desenvolvimento de gazes e li- 
quides deletérios, variáveis com a espécie de for-» 
mentação e por conseguinte de organismos productores 

> 

os quaes seccam ou damnificam as fontes da vida, 
perturbando o physiologismo das funcções até a 
morte. 

Em nós não ha o exclusivismo absurdo— porque 
systematico e arbitrário — mas o eclectismo racional, 
despreviuido o acoorde com os conhecimentos mais 
recentes. 

Quanto ao até certo ponto volátil, permitta-nos o 
coUega que digamos ser uma phraze digna do modi- 
ficação. Com effeito não ha volatilisação no sentido 

6 



40 



rostricto da palavra, pois que não ó gazoso o princi[)io 
nem susceptível do se o tornar, como depois demons- 
traremos. Não somos nós que o disemos; affirmam-no 
todos os pathologistas modernoE^, todos os microgra- 
phos, 

Compreheodemos o que quiz exprimii' o autor por 
aquelles termos, isto é, que o principio toxico vôa, 
percorre a atmosphera, invisível, impalpável quat 
sombra do abysmo, que ataca sem ser presentida,. 
qual veneno gazoso, que aspLyxia sem ser visto. Mas- 
d'ab.i, . da existência do prmcipio ou da partícula fer 
m entesei vel no ar que respira o enfermo á determi- 
nação de um gaz deletério, vae um erro, e um erro inad- 
missível hoje ante as investigações modernas, como^ 
inadmissível é também perante o raciocinio, como 
passamos a demonstrar. 

Sem reeorrer a autores estrangeiros podemos apre-- 
sentar ao nosso collega uma autoridade a quem esta- 
mos muito habituado a respeitar profandamonte, e 
que citamos com a maior satisfaçãO) porque assiui 
nos accontece sempre que podemos recorrer á litte- 
ratura pátria. O nosso illustrado mestre, o Sr. Couse 
lheiro Faria, jYi em 1S72 enunciava d'este modo a sua 
opinião: «Alguns pathologistas modernos acreditam 
sem muita razão que os agentes do contagio têem uma 
forma subtil ou gazosa; não ha motivo para cre-lo. O 
agente mórbido que produz a sarna, o das aphtas nas 



41 



<!reaDças, o da tinha, etc, são parasitas p8ricitamç.iíte 
demoDStrados e não principios contagiosos. » (31) 

Com eiíeitOj n'estas condições não passaria a dou- 
trina expendida, quanto á parte genésica dos primei- 
ros insultos orgânicos, da engenhosa theoria de A. 
Ouérin, tal como ello a íormulava antes de conhecer o 
fermento productor da pyohemia; não passaria do ty 
plio cirúrgico do distincto cirurgião de S. Luiz, quando 
aintla accsitava eile o celebre miasma gazoso, volté- 
ando invisível pela atmosphera hospitalar e como tal 
absorvido. 

E' verdade quo o modo de absorpçãD pelas lacunas 
lymphaticas, a íixação do veneno aos glóbulos bran- 
cos, a explicação dos enfartes, dos abscessos, dos 
derrames articulares, em summa o brilhantismo da 
•dcscripção minuciosa d'esse mecanismo pathologico, 
pertenceria inteiro á theoria do Sr. Martins Costa; mas 
ficava-lhe a falta de exactidão na qualificação do prin- 
<3ipio virulento; restava um lado fraco na theoria, o 
hypothetico, o indeterminado, o vago. 

Hoje ninguom mais tem o direito de desconhecer 
que as fermentações que se passam na ferida são de- 
vidas a microzymas quo alli crescem e se reproduzem. 
O mais que se pode admittir ó que os clínicos exclu- 
sivamente afferradosás theorias chimicasdos envene'- 

(3 U Coiis. Aaíonio Januário ilu Faria. Apontamen to.^ para o es- 
tudo (ic Clinica, Medica. 187-J, p;ig. 314. 



42 



rminentos SG})ticemicos façam parar a acção dos 
fermentos na ferida, explicaudo os phenomenos geraes 
pela absorpção dos gazes provenientes da decomp0'i 
sição que esses vibriõe.s detec minaram na ferida. A 
maior parte dos clinico?, porem, reconhece, e de bom 
grado os seguimos, que o organismo fermento penetra 
os limites da ferida, vae ao sangue, íorraenta-o em 
uns casos immediatamcnte [infecção putridaj, em 
outros só quando encontra condições especiaes de 
calor e tiumidade, afíluxo do sangue, oxigénio em 
excesso, repouso, etc, como nos parenchymas (infec- 
ção purulenta), e em outros casos ainda pro"^oeando 
dyscrasias de diversa natureza segundo a espécie do 
fermento e sua actividade nutritiva. Como já em outra 
])arte dissomos, não negam estes observadores a acção 
cliimica dos gazes deletérios, e muito menos o seu 
dosonvolvimonto, mas sim a sua exclusiva absorpção. 

O fermento vae a todo o organismo, e em 
toda a parte podo, segundo a espécie a que pertence, 
produziu fermentação, isto ó, dissolução orgânica, des- 
aggregação do elementos constituintes, producção do 
azos deletérios que obram diversamente segando sua 
natureza, etc. 

Cesta arte se explica perfeitamente a differença 
dos envenenamentos, que d'outra sorte ninguém com-- 
prehenderia. E' por essa razão que lastimamos não se 
•tivesse querido utilizar o Sr. Martins Costa da verdadeira 



43 



theoría das fermentações, única susceptível de ada- 
ptar perfeitamente ás diversas evoluções das septicer 
mias. 

As fermentações mórbidas como as comprelien- 
demos n'este trabalho são hoje geralmente accei- 
tas na Europa; as discussões versam apenas sobre o 
mecanismo das intoxicações. Para o da pyolieinia foi 
muito feliz o Sr. Martins Costa, comtanto que se sub- 
stitua o seu — principio volátil — pelo fermento orga-' 
nisado. 

Não sabemos realmente como se escapíiria a opi- 
nião que admittisse um miasma gazoso, ao argumento 
tão valioso da inocuidade dos doentes de uma enfer- 
maria assaltada pelo íiagello, quando não possuem 
elles feridas abertas, cabindo nesse mesmo tempo como 
fulminados pelo terrível mal todos aquolles que apre- 
sentam a mais reduzida lescão do continuidade, o mais 
ligeiro ferimento. 

A sor gazoso a ninguém devia respeitar o princi- 
pio virulento; todos sem excepção, salvo uma idio- 
syncrasia especial, deviam ser immediatamente assal- 
tados pela pyobemia. Partimos do seguinte principio: 
Wio ha via de absorpção gazosa mais activa, mais 
enérgica, nem mais prompta, que a superíicie pulmo- 
nar. Desenrolada a superfície das vesículas do pulmão 
resultaria, sem duvida, uma area tão extensa que ne- 
nhuma solução de continuidade a poderia equivaler. 



44 



salvo a admittir-se uma denudação quasi completa ua 
camada dérmica pelo arraucamento considerável da 
epiderme, o que só é aoceitavel em uma vasta quei- 
madura. 

Ha quG;ii duvide d' c&ta absorpção gazosa, effec- 
tuada em tão larga escala pelos utriculos pulmonares ? 
Os envenenamentos pelos gazos deletérios, todo o dia 
reproduzidos e por toda a parte comprovados, pro- 
testam energic-imente contra este septicismo, que 
equivale quasi á mais supioa iguorauoia. 

Logo, a admittir-so o supposto miasma gazoso, ó 
de intuitiva acoei tacão a extensibilidade do contagio 
a todos os individues de uma enfsrmaria, quando se 
contiver em sua asmospliora o l(3thiíero principio 
portador da pyohemia; mas ó exactamente contra isso 
que altamente protestam os fados de todo o dia, a 
observação clinica de todos os lugares. 

Eis, portanto, demonstrado que não podo ser de 
natureza gazeiforme omiicl gerador da febre purulenta. 

Esse principio, pois, que escapou cá tlieoria do Sr. 
Martins Costa, não c ura gaz, porem sim principio so- 
lido, organisado o vivo: é um fermeuto. 

E' isso o IS demonstram asbellas experiências de 
Vulpian, Davaiuo, Bechamp, Estor, Henri -Huchard, 
etc, na França, e de Grcveller, ííueter, Bircli — líirs- 
clieleld, Cobn, Feltz, Coze o outros, na Allemanha. 

íjDja observação agora. 



45 



Acceita a existência d'esses corpúsculos luicros- 
copicos na producção das septicemias, dos cuvciioua^ 
mentos sanguíneos, e por conseguinte da infecçfio 
purulenta, tem todo cabimento o até ctrto ponto volátil 
do Sr. Martins Costa, quando se refere ao elemento pa- 
tbogenico da pyoliemia; porque esses corpuseuios— 
mouadas, vibriões ou bacteries — volteam realmente 
mui frequentes vezes pela atmosphera nosocomial, 
exactamente quando o íiagello de que são ell<3S caufíí!, 
efficiente dizima horrivelmente os operados. Volátil, 
na accepção de piincipio gazoso, é um erro inadmissí- 
vel com os conhecimentos da sciencia moderna; no 
sentido, porem, de corpúsculo tenuissimo volteando na 
atmosphera, ó facto, e facto perfeitamente compro- 
vado. 

Demonstrada como fica a não existência de um 
supposto principio gazoso, passemos a enunciar a theo- 
ria que nos paiece melhor ©xphcar a producção da 
infecção purulenta. 

Sobre uma superfície traumática dcpositou-se o 
organismo — fermento, o microcoocus ou sporo do uma 
bacterie (dabacterie termo, segundo Birch-^Hirscufeld), 
trasi lo pelo ar atmospherlco, que cerca de todos os 
lados o doente. Apenas em contacto com a fenrida en- 
controu o fermento organisado as condições necessá- 
rias ao seo desenvolvimento — oxigénio, calor e humida- 
de. Oxigénio foraoceram-lho o ar ambiente e os elemen- 



46 



tos mesiuos da ferida; calor o resultante da phlogose lo- 
cal, do afogaDiento dos tecidos por um aocumulo do 
sangue na parte amputada; humidade a que pro- 
reai da retenção dos líquidos segregados, do san- 
gue, lyaipha, suppurações abundantes, liquefacções 
de elementos gangrenados, etc. Quanto mais anfra- 
otuosa a ferida, menos cuidadoso o tratamento lo- 
cal, menos vigilante a desinfecção, addicionando- 
se a isto um estado particular da atniosphera hos- 
pitalar, ou uma epidemia reinante — tanto mais ex- 
tensa e Intensa a fermentação desenvolvida na ferida, 
por isso mesmo que sobram-lhe os elementos favora- 
Yeis. Festas condições transforma-se a ferida em uma 
vasta superfície povoada por um sem numero do proto- 
organismos, cuja nutrição e reproducção extraordiná- 
ria fazem-se á custa da desapparição dos elementos 
anatómicos da parte, da qual roubam avidamente o oxi- 
génio os parasitas,transformando-se em seguida o carbo- 
no, o hydrogenio e o azoto em compostos variados, que 
pela maior parte se desprendem, constituindo os 
gazes que goraloieute se produi^em em taos feridas, 
A proliferação parasita á medida, pois, que se desenro. 
la em uma vasta superlicie, destroe os elementos íi. 
gurados das partes adjacentes. Os estragos são portanto 
consideráveis, mas não param ahi. As lacunas lympha- 
ticas modernamente descobertas, onde vão terminar-se 
um numero considerável de capillares lymphaticos e 



47 



os vasos da rede eapiliar saQguiaea abrem uma pi»rta 
franca e C!>asideravGl á aiigi-ação dos organismos-fer- 
meiítos. Mic-.íí- a:cus, bacterie ou Kpirillo, a passagem 
é fácil de e í; 'icar. Adm^ttido e comprovado como está 
por todos os observadores que as bacteries movem-se 
em oscillações repetidas, emdiíIf^-Bíitos direcções, e que 
03 si^iriiios giram - de coatiíiuo em mn verdadeiro mo* 
vimento rotatoilo, íacrlmeuto se comproiíende como 
se vão elles apresentar íís aberturas dos capillares 
sangaiDeos, corroídos pela própria destruição orgânica, 
produzida pelo trabalho da fermbntação, e principal- 
mente ás lacunas lympliaticas, sendo por um e outro 
modo rapidamente derramados na massa circulatória. 

Qnauío aos micrococcus, si lhes faltam os movimen- 
tos dos primeiros, rest-im-lhes o moviraônto browniano 
para fazol-os, quando próximos a uma lacuna, preci- 
pítarcm-se a'ella, ou ainda a simples reproducção prodi- 
giosa que se eífectua em sua massa para que em breve, 
levados pelos líquidos em que nadam, depositem-se 
n'tíssas mesmas lacunas, douds são rapidamente arre- 
batados. Penetrando no sangue provocam immeclia- 
tameiite os orgauismos-fermeotos uma reacção enér- 
gica da economia inteira, cujo })riD3eiro signal ó o vio- 
lento caMrio inicial da intoxicação. EepresenteeUô_ 
um estado congestivo da m6dulla,,transmittihdo-se ra- 
pidamente aos nervos vaso- motores cutâneos qu© 

d'ahi partem, ou reconheça qualquer outra causa, o 

7 



48 



facto ó que- o calefrio ó constante e poi assim di/er o 
primeiro grito de alarma do organismo em sobresalto- 
O principio nocivo fere os mananeiaes da vida, e a or - 
ganisação inteira offerece uma luta lieroica ao veneno-; 
qm circula em seu seio procurando devoral-a. 

Uma febre iutonsa tem então lugar, o calor ani- 
mal sobe a um gráo exagerado,e, ou a quantidade do to- 
xico é insignificante e os emunctorios vão em um mo- 
mento despcjal-o, ató que nova roabsorp^ão provoque 
u,n estado semelhante, ou o ataque geral é formida 
vel e a economia succumbo sob a pressão do terrirel 
veneno. O delírio, a vermelliidão da pelle, as dores 
generalisadaSj a prostração- de forças^ denunciada por 
um decubitus dorsal, a anxiedade e até a dyspnéa, etc. 
encontram uma explicação fácil e plausível neste es- 
tado de profunda alteração da crase sanguínea, que 
necessariamente repercute no systema nervoso -cérebro 
ospiulial. ' 

Não. pára abi a acção do organismo-fermento ab^ 
sorvido. liOvado pelo sangue não se limita elle a circu- 
lar livremente emsua parte liquida: ataca os elementos^ 
figurados, penetra o leucocyto. Greveler e Eueter 
foram os primeiros a presentir esto phenomeno, e 
uma bella experiência feita por e«tés dous observa- 
dores vae agora explicar-nos o mecanismo da pro- 
ducção dos abscessos metastaticos. Em uma rã em que 
injectaram um pouco de sangue putrefeito, e cujo me- 



49 



scaterio osaiuiairam, vivam tílias (jiio em breve a 
c.ircul-\ção sô retardava em vários pontos. O raicrosco-- 
pio tlomoQ.st-1'ava que estas obsfcrucções eram devidas ao 
collaiueuto de um ou dous glóbulos l)raucos á parede 
do N'aso, ou a uma agglomeração de organismos— fer- 
mentos [mouadas d'estes autores] em lugares Tariaveis 
lím glóbulo vermelho muitas vezes vencia a resistên- 
cia 6 a desobstrucção tiulia logar. A-S experiências fo- 
ram repetidas, e até no pulQião, se bem que mais dif- 
íicilmeiitO; foi o facto sempre observado. Attribueni 
os autores d'esta experiência o facto da maior adhe- 
rencia dos glóbulos bi ancas ás paredes vasculares 
introdueção em s-cu interior das monadas dispersas 
pelo liquido sanguíneo em copiosa quantidade. D'este 
facto experimental concluem Greveler e Hueter para 
o caso patbologico.. Segundo elles os abcessos metas- 
íaticos da pyohemia não reconhecem outra causaj são 
o resultado de stases parciaes, verdadeiros núcleos de 
irritação, donde os phenomenos inflammatorios pre- 
cursores dos abscessos nietastaticos (32). Os últimos 
estudos histológicos teem realmente feito conhecer que 
03 glóbulos brancos são dotados de verdadeiros 
appendices oa saliências protoplasmaticas, que em 
<íoutiuuo movimento apanham e inchiom tudo o que 
se lhes approxima, retendo assim cm seo interior 
particuTas solidas de anilina, etc, quando se iu- 

jnjj iinriic drs <SV, méíJ. de llaysDi I. 1 píig', 430 e iíO 



50 



jcctii DO saiíguc tul substaucia. De»te modo ó faoií 
compreliender que os leucocytos inelausurem também 
a3 iDactõrics, levando-as em seguida a todos os órgãos 
e parencbymas, até que, chegando áquelles mais ser- 
vidos de vasos e onde o diâmetro dos capillares é maiss 
delicadO; acham as bacteriesna demora quo experimen- 
tam em taes órgãos (pulmão, fígado, cérebro, rira, etc), 
na abundante proporção de oxigénio que para ahi af- 
liuo, e no çalor existente os elementos indispensáveis 
ás fermentações. 

Subscrevemos, pois, a theoria de Grevelcr e Hue? 
ter, que é em França adoptada por Henri Huchard, o 
que entro nós sustenta o Sr. Dr. Domicigos Carlos era 
Sua excellente these de concurso á pag. IIS,- theoria 
que, segundo nos consta, vae tomando ultimamente cor- 
po na França e na Allemanha, onde um grande numera 
de hábeis cirurgiões começa a defendel-a e eusinal-a. A 
parada de taes glóbulos deformados nos pareuchymas 
de ténue rede capillar explicam perfeitamente o i7i- 
farctus, a inflam mação pori-focal e os abscessosjas trans- 
formações chimicas e vitaes, que as bacteries produ., 
zem nos elementos d'esses mesmos órgãos, dão a causal 
dos envenenamentos ou septicemias resultantes. 

Em conclusão sobre a theoria que aventuramos 
para explicar apathogeneso da pyohemia, proc a . are- 
mos ros,umil-a nos soguiutcs termos: A infecção puru- 
lenta oonsisto em uma serie de phenomenos que, co- 



mt3çan(.lo- na ferida, vão terminar na trama mais de- 
licada dos pareDchymas. Na ferida o elemento das fer- 
mentações, importado directa ou indirectamente do 
ar atmosplierico, produz a desaggrogação mollecular 
dos tecidos, dando em resultndo líquidos e gazes infe- 
ctos e eminentemente phlogogenos. Incluido no gló- 
bulo circula o fermento com a torrente sanguínea até 
as partes mais recônditas do organismo, onde existi- 
rem, como aciiua dissemos, as exigidas condições para 
o sou desenvolvimento posterior. Alii reproduz a ba- 
cterie os mesmos phenomenos a que dera lugar no 
fóco do traumatismo, e as desaggregações mollecula- 
res, as irritações pela substancia toxica c os abcessos 
teem então lugar; formam-so outros tantos fóoos de li- 
quides o gazes eminentemente deletérios. Eraquauto 
esta marcha do elemento ^ organisado tom iogar na 
economia, as substancias pyrogenas, cujo desenvolvi- 
mento começa na ferida, continua-se no sangue e ter- 
mina nos parenchymas — quasi^sempre com a vida— 
essas substancias pyrogenas, dizemos, activam as cal- 
deiras do organismo desenvolvendo o apparelho febril 
o mais assustador. 



CAPITULO III 



A septicemia, que acommettQ as feridas em condi- 
ções determiuadas, apozar de partilhar alguns dos ca- 
racteres peculiares ás duas intoxicações sanguíneas 
que acabámos de estudar, differe debaixo d'outros pon- 
tos de vista d'esses estados e reveste uma physiogno- 
mia inteiramecte diversa. Os pontos de contacto es- 
tam em dependerem todos os tres accidentes dos trau- 
matismos de uma fermentação mórbida que, em cir- 
cumstancias especiaes, tom lugar na superôcio da fe- 
rida, e em consistirem todos olles em uma intoxicação 
sanguínea, em uma corrupção do sangue, isto é, em 
constituírem verdadeiras septkemias cirúrgicas. As 
difierenças quo apresentara esses tres estados patho- 
logicos está na proporção do organísmo-fermento ab - 
sorvido ou em sua qualidade. 

E' assim que na febre traumática uma absorpção 
limitada o difiQcil e uma prompta eliminação dos prin- 
cípios absorvidos, explica facilmente a benignidade 
d'oss6 c?>tado, o que uma difísrença nas espécies pro- 



53 



ductoras dos dons accideutes, e até um mecanismo di vt;r- 
so de intoxicação dão as razões da symptomatologia 
desigual das infecções pútrida e purulenta. 

O prognostico mesmo destes tres accideutes con- 
corre a demonstrar as dlíFerenças que os separam. A 
febre traumática é, geralmente, de consequências 
pouco assustadoras. «A infecção pútrida, diz o nosso il- 
lustrado mestre o Sr. Cons. Faria, quando ebega a enve- 
nenaras fontes da vida, reduz o papel do medico ao de 
triste e impotente expecta dor de seus horríveis estra. 
gos.» (33). A infecção purulenta, ainda quando não attin- 
ja proporções exageradas, como ó necessário á infecção 
pútrida, é sempre de um prognostico muito desfavo- 
rável ao doente, porque os abscessos parenchy matosos 
complicam perigosamente o estado septicemico do in- 
dividuo. 

Na infecção pútrida não nos teremos muito que 
demorar, pois um certo numero de factos necessários 
á explicação de sua patbogenese ficaram já estatui^ 
dos com o que dissemos a respeito da febre traumá- 
tica 6 infecção purulenta. E' o mesmo o mecanismo da 
absorpçcão: capillares eanguineos e lympbaticos e as la- 
cunas lymphaticas. 

O elemento organisado ó, porem, diverso na se'pti- 
cernia. Segundo Couh, Biroh-Hirschfeld e outros ó a 

Cons. Faria. Apontamentos pãra o estudo de clinica medicai 

1872; pag. 338. 



54 



lacterie termo, elemento das putrefacções orgânicas. 
Este proto-orgauismo é extraordinariamente destrui- 
dor, goza dás propriedades mais nocivas e deletérias. 
Apenas penetrando a massa do sangue determina elle 
as mais notáveis desordens em sua organisação molle- 
ciliar. Os glóbulos brancos que, ávidos einappreliender. 
enclaiisuram-no pelos appendices que lhes são peculia- 
res, e que elles tão activiícueiíto poem. em acção nos 
aeus movimentos amiboides, experimentam rapida- 
mente a energia corro.siva o destruidora do fermento. 
Entranhado no protoplasma do glóbulo o orgaalsmo-- 
formento, para satisfazer aos actos de sua nutrição 
especial, rouba elementos ao protoplasma do mesmo 
glóbulo, que immediataitiaute desorganisa. ' 

E' esta a doutrina que abraça o nosso illustrado 
mestre o Sr. Dr. Domingos Carlos, e que ainda não tí- 
nhamos encontrado em autor estrangeiro ou nacional. 
Eis as suas expressões: 

« O gérmen -fermento da infecção [líitrida é diíia. 
rente do da intoccão purulenta. EUe pGssue uma acção 
eminentemeote destruidora dos glóbulos brancos do 
sangue, onde penetram livres, dando lugar a uma ver- 
dadeira septicemia, no rigor da. expressão. O estado 
do sangue que resulta d'esta infecção ó inctímpativel 
com as funcções physiologicas, desviando o organismo 
da harmonia de acção que constitue a vida» (34). 

[34] Dr. Domingos Carlos da Silva, Thesc de concurso á fÃideirci 
da ^Hthologi a externa. 1S74, pag. I'á2. 



55 



J;i SG vê, pois, qnQ atua diiforonça ikotavel separa 
oâ dous ost;\(l()S patliologioos: cm um, na pyohemia, o 
glóbulo bi uiico, tendo incluso o fermento, circula por 
loila parte, o domoraíido-se nos parencliymas, onde ó 
delicadissima n rôde vascular, oscilla brandamente 
até adlierir, como vcriílcaram Greveler e Hueter, á pa- 
rede do voso, oiiuo a agglomei ação consecutiva da 
outros glóbulos estabelece um verdadeiro embaraço ^ 
circulação, um ciTibolo, que se oppõe á passagem do 
sangue. Esta propriedade attribuida por Greveler, 
Huetf/i", Henri Eenda, Huchard, Martins Costa, etc, á 
introducção do proto-organismo no leucocyto, que 
assim perde as suas qualidades naturaes, explica i^er. 
feitamente a estáse por obstrucção dos ramos aíferen ■ 
tesão obturado, a irritação provocada por um infarctus 
d'esta' ordem, a iuíiammação peri-íbcal, o abscesso 
em fim. 

Na septicemia uma serie diversa de phenomenos 
tem lugar. A actividade destruidora do parasita não 
permitto a . inclusão demorada no leucocyto; a des- 
truição d'este ultimo ó irremediável e iinmediata, e a 
dyscrasia sanguínea explica todas as desordens obser- 
vadas. 

O estado do sangue na septicoTiia ó tal -qiio a pu- 
trefacção parece quasi, invadir os dominios" da vida, 
6 poucas horas após a morte apodora-se do cadáver, 
rapidamente apresentando todos os signaes de uma 
decomposição adiantada. 

3 



Todos os autores são acconles cm qiio uoíavci.-s 
diífereuças separara a infecção piitvida da puvuleutii, e 
os clinicos e miorographos são todos da opinião quo ó 
diverso o elemento productor das duas entidades mór- 
bidas. Os primeiros, julgando, pelos variados effeitos^ 
da natureza diversa da causa em cada moléstia, achara 
forte e valioso appoia de lado dos segundos,quo,uo cam- 
po do microscopio,reconliecem notável variedade de or- 
ganismos, quer na forma,ua grandeza, na agilidade, etc-; 
quer ató na natureza intima, pois pertencem uns ao 
reino animal e outros são apenas os rudim,entos dos 
vegetaes, 

E' mais uma vez a confirmação posterior pelos- 
progressos dascienoiade um facto previsto pela monto 
arguciosa e esclarecida do observador attento e per- 
severante. 

E' assim quo muitas vezes o micrograplio, do fundo 
de seu gabinete, estende a mão ao clinico atarefado no 
meio da enfermaria, para confirmar-lhe as deducções. 
Outras muitas vezes não ó somente a confirmação do 
previsões clinicas: o homem do microscópio não traz 
então o caracter de confirmador, mas o do mostrej 
não comprova, impõe; não corroborn, elucida; não so 
refere simplesmente a uma suspeita cuja certeza vem 
affirmar, mas a uma incógnita difiBcil que encontrou, 
não virá dar o veriãictum, porem sim bradar — eureka- 
O raio luminoso parto muita vez do microscópio» 



57 



Em relação á patliogenia das moléstias iufectuo- 
sas, climcos e micrographos estão perfeitamente ac- 
cordes: o elemento parasitário é diverso. Presentiu-o 
ii clinica, a microscopia o demonstrou, 

Nada mais natural. 

Faltaria o Creador a uma das mais necessárias 
regras da osthesia da creagão, si rompesse com a va- 
riedade no microcosmo. Este racliitico e deformado, 
abjecto o vil, mesquinho e sem belleza — seria indigno 
do Creador do macrocosmu. Mo, uão ó possível: a ve- 
gotação em pequeno ha de necessariamente ser' equi- 
parável, mutatis mutancUs, á vegetação em grande. A 
variedade é, pois, inhereute á primeira como da essên- 
cia da segunda. 

O mesmo -^na animalidade. Microzoario ou não o 
animal será sempre variegado^ e as espécies, as famí- 
lias, as divisões e as classes existirão sempre, de ne- 
cessidade, no mundo dos infusorips como no dos mas- 
todontes, trj-gonocephalos, etc. A microscopia e a 
paleontologia, como extremos, tocam-se afinal. 

Assim, pois, variada como ó a qualidade dos mi- 
crozymas, variável deve tamhem ser a sua acção: ^ 
picada do mosquito não equivale á mordedura da cas- 
cavel, nem o lacráo ó inuocente como a formiga. O ma- 
rinbondo pouco maior éque a mosca, mas sua ferroada 
é perigosa, e {para provar (lue o tamanho pouco in- 
fluo) a giboia não segrega uma gotta de peçonha, ao 



58 



passo quo a jararaca por uma pequeisa ícrida íastilla 
110 Bangau do iufeliz o mais lethal veneno. 

Ató aqin raciocir.ámos sobre as investigações dos 
sábios, discutimos apõnas tkeoricamente e por isso 
talvez nos censurem as conolusões. 

Lembramos, porem, aos nossos críticos que argu- 
mentámos thooricameiite, ó certo,' mas que a tlieoria 
apresentada asseuta em foctos bem estabeJcfndos. 
Apenas noá puderão accusar de íiervirmo-nos de foctos 
oJlieios, mas será isso ura crime em sciencia'? Ou então 
se invalidará só por esfa eircnmstancia atlieoria discu- 
tida? Parece-nos que não, salvo a admiltir-so a des- 
crença absoluta na seriedade dos observadores e na 

veracidade dos factos; mas então ai! da sciencia! se 

tal septicismo lhe inva lir o:í arraiae.i ! Como em tudo, 
a descrença na probidade sciontiíica- trará o aniquila- 
mento do verdadeiro progresso. 

Mas, voltemos ao assumT)to, 

A diversidade de acção nos habitantes do mu:ido 
microscópico, arfiariçamol-o, é, como dizem clínicos 
mycrogrnplios, uma venhido incoucussn. Bnidom em- 
bora zoilos, a soiencia de observação o experiência, 
isto é, a scienoia do trabidho, não a da pliantasia; a do 
iaboratorio, não a do gabinete; a que se sublima ao 
alor das fornalhas do chimico, não a que se icnerva na 
macia rède do phantasiador; a que respira vapores ir- 
ritautep, cão a que s-. rvo a fumara do clirii-vitoj-^essii 



59 



a positiva quando a questão c positiva, lia dc seiupic 
progredir, jorrando catadupas de luz. 

Cremos uóa, pois, na observação de liomens sérios 
encauescidos na sclencia. 

idas, dissemos nós que aínauçavamos ser real a 
diversidade encontrada pelos sábios no iimudo dos in. 
fiuitivamente pequenos. Vamos adduzir as provas, 

Daus factos por nós observados confirmam as 
idéas que sustentamos. Tivemos a íelicidíide dever ao 
microscópio dous animalculos bem couliecidos: o aca- 
Irus scabiei ou. sarcoptes scabiei eo demoãexJolUcu- 
lorum ou Shnonea folUculorum, ambos da ordem dos 
acariauos. Pois bem, nada mais diverso na coufigura- 
ção que estes dous parasitas. Procurando comparai- os 
apontaremos no mundo des sentidos o cagado para o 
acarus e o calango para o demodex. Haverá semo- 
lahança ? muito menos identidade. Isto quan- 
to á forma. No tamanho, o acarus ó visivel a olhos^ 
nus como um ponto branco diminuto, o demo- 
dex íoge á vista a mais perfeita. O acarus tem na 
media (35) de 0'"in^ 30 a 0'"^^', 37. e o deujoJex, 
(3G) de Omm^ i a 0>i"ii, 3. O maior dos demodox é 
apenas comparável a um acarus ordinário. Quanto ao 
modo de viver do cada um ha necessariamente diífe- 
renças, porque um, o acarus, nutre- se á custa dos 

f35] ].!(í.,-í e llobiii. Diríhinv.aire cie Mái. iS:3. psg. 1.175. 
foíi) Ibi.l pag. •í-::j. 



60' 



tecidos^ donde lhe vem o nome de^-sarcopta — que corta 
a carne; o outro é totalmente innoxio — verme do cor- 
po, — demodex, para assim exprimira sua quasi consul)- 
stanciação com o corpo que o alimenta o traz em si. O 
acams produz uma moléstia e bem cruel, o demodex 
vive iuocuamente n(5 fundo do folliculo pilloso, si é que 
até não representa lá um papel importante á nutrição 
e vida doíblliculo. O acarusprodaz a pústula da sarna 
o persegue o doente; o demodex nem se deixa aperce- 
ber. Em summa — um ó eminentemente nocivo, outro 
completamente innoxio. 

Si a nós, que apenas vimos ao microscópio dous 
parasitas inferiores, acodem estas distinções, o que não 
farão os sábios que teem devassado o mundo desses 
bi finitamente pequeno^? 

Uma observação ainda e para concluir: os dona 
parasitas teem laços de parentesco na zoologia, per- 
tencem ambos á mesma ordem, e no entanto quanta 
differença na acção? E' como no reino vegetal: o fumo 
que deleita os sentidos, é da familia do estramonio, que 
envenena. Os caracteres botânicos e zoológicos não 
marcam a qualidade electiva de acção em cada es- 
pécie, vejetal ou animal. 



"CAPITULO I 

APRECIAÇÃO DOS PROCESSOS DE CURATIVO APÓS AkS 
OPERAÇÕES CONSIDERADOS MAIS UTÉIS AFIM DE EVI- 
TAH-SE A INFECÇÃO PURULENTA E A SEPTICEMIA. 

Nous croyons avec iMalgaigne 
qu'uii pansement qiii diminue Ia 
qiiantité des liquides, empéclie leur 
altération et les met à l'abrí dn 
coiitact de l'air vicit?; un t«l pan- 
sement, disons-noHS, peut préscr- 
ver de l'infection piinilente. 
(BBNJAMrií Anger. Pansements 
desplaics chirwgicales . Pg. IG2- 



A pathogenia das infecções putiida o purulenta, 
que desenvolvemos na primeira parte d'esto nosso hu- 
milde trabalho, faz-nos de ante-mão determinar as es- 
pécies de curativo mais aptos a opporem-so á accfio 
maléfica dos proto-organisraos productores d'essas in- 
íecções. E' assim que devemos presuppor dotados do 
tal quahdado os curativos que mais aíí;istarem do con- 
tacto do ar as snporficies das feridas, que as conser- 
varom em maior estado do accio e que, finalmente, 



melhor so oppuzereiíi ao desenvolvimento e reprodu - 
cção d'esses seres parasitários, por propriedades to- 
xicas que em relação a elles desenvolvam, sendo não 
obstante inteiramente innoxios ao ferido. 

O ár atmosplierico foi em todos os tempos o lu- 
gares considerado como nocivo á cicãtrisrição dos trau- 
matismos, como perigoso para as feridas, quer pro- 
viessem dô um ncoideuto qualquer, quer tivessem 
origem em uma operação. « Aínbrosio Paró bera 
como Hippocrates, diz Benjamin Anger (37), inclina-se 
a attribuir a acção irritante do ar á baixa temperatura 
que pode ter elle adquirido relativamente á das p>ar- 
tes vivas. Era esta influencia considerada como um 
facto puramente physico, sendo apenas entrevista a 
acção oliimica do ar a partir da descoberta de Pries- 
tley. Eiolierand, Boyer e Dupuytren proci^raram em 
seos curativos <?ollooar as feridas ao abrigo d'esta in" 
íluencia Irritante;, que attribuiam elles ao ar a titulo 
de gaz, influencia que, por nma dessas reacções fre- 
quentes nas questões sciontiíicas, outros observado^ 
res, tendo á frente Velpeau, dimiuuiram e negaram 
mesmo completamento. A influencia excitadora sobro 
as toridaa, attribuida ao ar atmosplierico por Monro, 
Hunter e Tliompson, é um facto experimentalmente 
demonstrado pelos traballios dos cirurgiões que se 
teem entregue ao estudo das feridas sub-cutaneas; © 

Paniiemcntdefiplaics civurgiccãcs. 1872. pag. 8. 



G3 

Julio Gaéda teiu com razão insistido sobre o papel 
do oxigeuiu como «.gente do excitação- das feridas, 
Demarqtiay clinica e experimentalmente demonstrou 
o facto que acabamos de apresentar. « Estas idéas re- 
presfcuram perfeitamente nma epocha de obscnridade 
scientiíica em relação ao exame completo do ar atmos- 
plierico, c revelam plenamente mais uma vez que a 
clinica ensina a evitar agentes, cuja natureza perfei- 
tamente desconhecida então, ó depois determinada 
por um exame minucioso, accorde com os progressos 
da sciencia. E' d'esta sorte (luo o observador attento, 
o pratico dedicado antevê muitas vezes os mais ob- 
sc/uros acontecimentos e evita um sem numero de 
agentes deletérios, cujo modo de acção é-para elle um 
myst-erio. Desde as mais remotas epoclaas receiaram, 
pois, os Clínicos a acção nociva do ar sobre as feridas, 
e com quanto hypotheticamente explicassem o moti- 
vo do tal eífsito, nem por isso desconhociam seus no- 
civos resultados. H )je a ^clinica continúa a confirmar 
o facto de todos os tempos e lugares, mas a micros- 
c-opia o a cIlDica dão a chave do enigma, resolvem o 
problema satisfactorianaente. As analyses do ar atmos- 
pberico fazem ver que o principio deletério, a maté- 
ria organisada, o organismo — fermento, que acceita- 
mos como causa das infecções pútrida e purulenta, e 
que dissemos existir no ar que respiram os doentes de 
uma enfermaria, é uma realidade. Guyon assim se ©x- 

9 



64 



prime èm relaçfxo a este ponto (38): - rievcil em Mias 
niialyses ciecanicas do ar, verificou a e.\is{ei]íMa de 
matérias orgânicas na atmosphera das í nlas do lujs[)i- 
tal Lariboisiére, e recolheu-as om uma serio do lariii. 
nas do platina crivadas, sobre as qiiaes se deposita- 
ram ellas á medida que o ar atravessava os orificios. 
Etíi 1862 Chalvet veriíieou quo o ar cotilem ama pro- 
porção maior ãe matérias orgânicas nas salas de cirur- 
gia do que nas de medicina. 

Nas visiiihaças de um doente atacado de podridSo 
doliospital era enorme essa proporção, Kulinauu analy 
sou o pó obtido do raspamento da superfície das pa- 
íedés caiadas e achou 46 de matérias orgânicas; é 
verdade que a caiação datava de dez aunos. A. Guérin 
mandou analysar por Lutz, pliarmaceutico do hos,~ 
pitai S. Luiz, o pó que cobria o vigamento de suas sa- 
ias. O limpamento foi feito de tres em- tres mezes, e 
entretanto a- poeira contiuba grande quantidade do 
matérias animaes que Lutz uão encontrou d:i de seu 
quarto de dormir^ 

Sabe- se que Pasteur demonstrou no ar a presença 
de organismos atmospbericos que obram á maneira 
de fermento e provocam a putrefacçãio. Tyadall os 
verificou ãe visu, por 'meio de raios luminosos con- 
centrados, Eiseld, (39) durante uma epidemia de con- 
iunctivite purulenta observada nos arredores de Praga 

fSS] Elémmlx de éhirurgie clinique, 1873; pag. 4.'>7. 

[39] Eisekl, Wochcnhlatl (Ur Zeittehr der ctcrste, rp 13, IStU. 



65 



íez esperieDcias sobro o ar contido eui um aposento 
encerrando trinta e tres doentes. Para esse fim sérvio se 
o experimentador do um instrumento análogo ao 
aeroscopio de Poucliet, que conocuu entre dous leitos 
no trajecto de uma oolumua de ar. Não tardaram os 
corpnsc los da atmosphera a dopositar-se sobro o 
pedaço de vidro untado de glycerina. Figuravam entre 
estes corpúsculos glóbulos de piís, perfeitamente re - 
couhecivcis. » Esta matéria animai já fôra presentida 
cm IS 13 por Âstier quo, segundo Armando Gautier 
00), « aiiirma g^m o ar é o velúciilo de ioda a espécie 
de germens^ origens do fermento, que este fermento 
de essência, animal, vive e nutre-se ás custas do 
ussucar, donde resulta a ruptura de equiUbrio entre 
os elementos cTeste ultimo. r, Este fí\cto, a principio li- 
mitado á fermentação saccharina, generalisou-se em 
pouco tempo a todas as fermentações pbysio-pa- 
thologicas^ os cirurgiões notáveis já prcsentiam a exis- 
tência de um agente especial na atmospliera bospi- 
ialar antes que ficasse o facto esta tuido por uma serie 
de experiências, concludentes. -Benjamim Anger (41) 
depois de estudar cuidadosamente a acçãb pliysico- 
■chimica do ar sobre as feridas, pergunta se será ella 
a única a influen ia-las. « E', diz elle, a mais evidente? 

[10} U'l.ude sur les fermentalions proprcment ãites ct les fermcn- 
■f (i-tions phynioloyiqiies ct pathologiques. 18G!); pag. i,t ■ 

[il] Ti-iíit td > eleiítvntar de Uyijieni, de Becqa«rel, anotado pel» 
Dr. E, Bcausrandj 1373, pají. 230. 



66 



a mais conhecida, a principal talvez; porem apenas 
attinge ella a cicatrisação a que perturba e rctarcla 
Não poderá o ar attingir profunda, intimamente a 
economia por intermédio da ferida? De um lado um 
órgão novo, dotado de absorpção considerável; do ou- 
tro um fluido sobrecarregado de emanações, de cor- 
pusculos, de miasmas, agentes depconbecidos, porem 
reaes, que a cllimica não isola e de que a economia ó 
o reagente. Não é aferida aportado entrada d'es- 
Ses agentes mórbidos ínf angíveiE? Não é assim que 
sé podem comprehender em parte es^sas iníluencias 
nosocomias devidas sem duvida a miasmas de.qne o 
ar ó o vehiculo, e das quaes esíorça-se muitas vezes 
debalde o ciTurgião em preservar as feridas o os 
doentes que as apresentam?» 

«A. analyso microscópica do ar, diz o Dr. E. ueau- 
grand (42), á qual se tem procedido ha nlgnus annos' 
tem permittido descobrir-se n'est(-: fluido uma mulci- 
tíão de corpos estranhos, dos quaes alguns devem 
exercer uma influencia manifesta sobro a saúde. O ar 
aspirado por um appareliio próprio deposita em um 
corpo poroso (algodão, asbesto, otc.) ou em ura liquido 
apropriado, as substancias solidas (]ue elle contem. 
E' assim que se tem encontrado no ar atmosphcrico 
spóros de parasitar^, germens de infasoiios (Pouchet^ 

(42) Tratado eUmciiiar de líyyi<nie, ue Recquevel, aiioíiulo pelt» 
Dr. E, l?cangT;md; 1873, pag- 230. 



(57 



Pasteur); que detritos orgânicos teem si(Jo encontra- 
dos por Gigot nas emanações pantanosas; que o Sr, 
Eisel reconheceu, no ar das ^alas cm cine rerlccm 
indivíduos atacados de blenuhorréa conjuncti vai, cor- 
púsculos de pus, verdadeiros vehiculos do contagio, 
que os Srs. Réveil e Clialvet teem demonstrado a exis- 
tência de partículas orgânicas na atmosphera das salas 
do hospital. 

Este conjuncfco de investigações, que se continham 
com ardor, não parecem reconduzir-nos á pathologia 
animada dos autores dos séculos passados?» 

A i)roposito das poeiras vegetaes diz mais acima 
o mesmo autor- (Certas producções cryptogamicas, 
desenvolvidas em differentes corpos podem, volatili- 
sando se, determinar accidentes mais ou menos graves. 
Assim os cauniços amontoados em lugar hmnido, em 
Jqcalidades mal ventiladas, co}:!re]u -se de cryptoga- 
mas (môfo), cuja dispersão pelo ar occasioua, nos que 
os maneiam ou em pregam, viras irritações bronchi- 
cas e das partes da pclle que experimentam seu con- 
tacto: os accidentes teem chegado aponto de'produzir 
a morte. Vegetações i>arasitas desenvolvidas sobre a 
palha húmida, grãos de linhaça avariados teem trazi- 
do phenomenos muito curiosos e rauito análogos, se- 
não idênticos, aos do sarampo. A existência, hoje íóra 
de contestação, das moléstias parasitarias da pelle, 
permitte admittir-sc o contagio d'est-as moléstias por 



68 ■ 

meio do transporte pelo ar dos sporos do achoriou, dO 
trichophytoD e d^uutros prodiictos fungosos.» 

Estão, pois, justificadas as vistas clinicas pelos 
íactos experimentaes, e , comprovado o que dissemos 
sobrô o perig»» que resulta do contacto do ar atmos- 
pherico sobre as feridas, resultantes ou não de ope- 
ração . 

Autos, [}orem, do particularmente nos occupar- 
mos desses differentes processos de curativo, cumpre 
estudar qual das duas praticas merece a preferencia 
em relação ao assumpto que estudamos: — a reunião 
ÍD3mediata ou a secundaria? 

A reunião imm6di?.ta, subtraliindo a ferida, pela 
appTOxiiuação intima de seus bordos ao contacto do 
ar, e impedindo o affluxo iníiammatorio e a retenção 
de líquidos segregados, uma vez que a reunião se passe 
em toda a superfície dividida, offerece as mais lisou - 
goiras condições para uma cura real e definitiva, isen- 
ta dos dons accidentes que queremos prevenir e de 
outros talvez de importância equivalente. Considera- 
mos, pois, como favorável ao fim a que nos propomos, 
isto ó, ao impedimento das dias infecções pútrida o 
purulenta . 

Porem qaai?.tas vozes consoguo o pratico realizar 
a reunião immediata que tão racionalmente adoptou 
l(!goapó3 o traumatismo? Iíeparc-S9 bem que estamos 
©striiilandô a preferenciadas duns espécies de reunião? 



immediata e coDsecutiva, somente em relação ás feri- 
das produzidas pela arte, pois ] procuramos apeuas o 
processo ou processos de curativo cj^ós as operações que 
sejam capases de evitar a ivfccçàtà pundcnta e a se- 
pticeniia, ^ 

Existe um certo uiimoro de feriflas produzidas 
por um accideiite, um desastre, um crime, etc., que 
exigem a reunião immediata. ]Sr'cste numero se acha 
uma grande parte dos íeriinentos por instrumento cor- 
tante ou períbrante. A regularidade dos bordos da in- 
cisão, suas dimensões circumscriptas, a séde de sua 
existência, etc, dão em taes casos a razão da prefe- 
rencia. Outrotanto, porem, uão succede após as ope- 
rações em sua generalidade. Trata-se muitas vezes de 
uma amputação, por ex., e a grande espesstira de te- 
cidos talhados pela faca do operador, sua heterogenei- 
.dade — d'oude adhesão diversa e mais ou menos retar- 
dada — a possibilidade das hemorrhagias consecutivas 
abundantes, ou pelo menos, do corrimentos limitados,, 
mas susceptiveis de irritação suppurativa pela presen- 
ça de CDagulos, eis outras tantas causas para que so 
frustre a desejada reunião immediata, podendo sobre- 
vir em resultado delia, porom, phleugmões, erysipelas, 
e toda a sorte de accidentes que costumam perturbar 
a marcha das feridas. Em circumstancias taes só o tin^ 
e a perícia do cirurgião devem julgar da opportuni- 
dade das duas espécies de reunião, estabelecendo as- 



70 



sim muitas vezes ' elie as excepções rAcionaes a uma 
regra que não pode pretender a totalidade dos casosj 
e traui^íbrmando iramediatamente outras vezes o pro- 
cesso curativo, quando tiver reconhecido que o pri- 
meiro empregado com o fim de olítei' a reunião im- 
mediata deve ceder lugar a outros que. inhorentes ás 
feridas em suppuraçãO; favoreoem-lhe a terminação 
desejada, oppondo fortes barreiras ás decomposições 
pútridas e suas consequeuf^ias. 

Durante o nosso internato o anno passado na cli- 
nica cirúrgica da Facaldaiie tivemos muitas vezes oo-' 
casião de presenciai' factos d'esta natureza. Em regra 
geral vimos procedor-se á reunião immediata, mas, 
quasi sempre, ou devido á irritação provocada pelos 
fios de ligadura ou por oatra ciroumstancia qualquer' 
vimos tornai-se urgente o emprego do methodo anti- 
séptico, das injecções plienicadas e externamente dos 
chumaços humedecidos no raesrao liquido, com o fim 
de comuator pertm-brições originadas no fóco mesmo 
da ferida, como um abscesso, a inflammação das partes 
profundas, etc, Quasi sempre produzia-se, nos casos 
de amputação dos membros que observámos, o colla- 
mento dos lábios da íerida, persistindo, porem_. vácuo- 
los ou lacunas profundas entre os diversos tecidos 
divididos, onde o pús se acoumulava, e d'onde era 
forçoso retirai- o quando elle mesmo não abria paãsa- 



71 



gern ik)V um dos cautos da ferida, ou ao nivel àe uiua 
ligadura. 

No G;iso cm que se tivor preferido a reunião con- 
secutiva julgamos que os processos a empregar, com o 
fim de dar Uma resposta affirmativa á pergunta da Fa- 
culdade, são aquelles que especialmente tiverem por 
fim a occlusão da ferida e sua perfeita desinfecção. 

No exame d'estes processos curativos evitaremos 
a prolixidade, procurando simplesmente enumerar oa 
que mais úteis nos parecerem contra as infecções sep- 
ticemicas. 

A extensão que intencionalmente demos á pri- 
meira parte deste trabalho dispensa longas explana- 
ções, que agora se tornariam por certo fastidiosas e 
l)aldas de interesse. 

Conliecido o modo de producção dos accidentes 
cirúrgicos, o tino e esclarecida oxperienc ia do cirur- 
gião se encarregarão do mais. O estudo accurado do 
que se passa na ferida e o modo de desenvolvimento 
dos accidentes — eis a parte mais importante: o pro. 
cesso curativo é uma simples deducção. O moãus 
aganãi do elemento productor das septicemias eirur - 
gicas ensinará qual o melhor moãus facienãi do pro- 
cesso curativo. 

« só por uma apreciação muito exacta, diz o 

Sr. Dr. Domingos Carlos, cujos elementos o cirurgião 

encontrará nos estudos pliysiologicos, que se podô 

10 



72 



racionalmente ctiegar, não a oDiubator exiles i-io-ar - 
dentes, que é mister menos importante, por ser 
matéria consigaada em todos os tratados do i);vtlio- 
logia, porem a ovital-os mediante uia curativo, oniqao 
não sejam estabelecidas as condições que se tornam 
indispensáveis para o desenvolvimento das alteraçõe s 
orgânicas que lhes dão razão de sor. 

E' então que a cirurgia attiuge aaltura do uma 
verdadeira soiencia, prenhe de cogitações, porem 
igualmente do benefícios qvie derrama ás mãos cheias 
á humanidade (43)». 

i^eitas estas ligeiras consideraçõeo passe-mos ao 
estudo de tiios processos curativos. 

I— CURATIVOS RAROS. São de incontestável vanta- 
gem no tratamento das feridas após as operações. Está 
de perfeito accordo com as idóas quo emitUmos sohre, 
as infecções que aoommettem as feridas ou septice- 
mlas, na phraze de todos os autores modernos que 
descobrem n^esses estados mórbidos, diversamente 
denominados, elos de uma naesma cadeia, membrog 
de um mesmo todo, indivíduos de uma mesma famí- 
lia — a das sopticemias; está de perfeito accordo com 
essas idéas, dizemos nós, o que acabámos de adianta^ 
sobre os tratamentos raros. Si, com effeito, é do ar 
que nos vem para o infeliz ferido ou operado o fatal 

(43) Dr. Pomiiigos Omíoí tia SilTa. Oo^ferencias dc clinica cirvA'- 
(ffiea. Bailia; 1871 ; pajç. 272. 



/ O 

veneno, gérmen d'essiis fermentações do tão nocivos 
resultados — subtrahir por longo tempo a ferida do 
contacto d'esso yoMcuIo de impurezas, d'esso tinido 
lethal, é iuf|aestionavelmente o mais racional dos tra- 
tamentos. 

Assim o pensava o celebre cirurgião italiano, Cesar 
Magatus, no século X 711, não sabemos sija prevendo a 
existência dos spóros o óvulos suspensos no ar das 
enfermarias; assim o pensava Belloste no começo do 
século XYÍII; assim o pensaram depois Larrey e Josse 
d'Amieas, e modernamente o julgam Alfonse Guériu, 
Verneuil, Gosselin c outros. 

Os curativos raros acham-se hoje rebabilitados, 
graças á perseverança de A, Guórin, que conseguio 
com elles resultados maravirnosos, o que continua 
ainda a logral-os. 

O illustro cirurgião írancez não levanta o seu ap- 
parelho senão quando suppõe que a cura já se tem 
realisado, ou quando sobrevem um accidente, mas en- 
tão com a maior cautella, afim de evitar o contacto 
do ar da eafermaria ou da casa onde reside o enfermO; 
Uma observação cumpre, porem, fazer; e ó que o appa- 
relho de A. Guérin não constitue simplesmente um 
curativo raro, mas a combinação d'estô com a occlu- 
são a mais perfeita. Consiste o processo curativo de 
A. Guórin no seguinte: envolver toda ferida e as partes 
circnmvisinbas^ acima e abaixo se éuma ferida na cou- 



74 



tinuidade do nii&mbro, acima do traumatismo sí se tra„ 
tademna amput5i,ção, envolver, dizemos, em uma espes- 
sa camada de algodão cardado, de muitos centímetros 
(12 a 15 e mais) dc espessura. Uma atadura enrolada 
comprime em suas voltas ascendentes e descendentes 
ou simplesmente ascendentes, si se trata de uma am- 
putação, as partes immediatamente visinhas á ferida, 
e estende-se até uma distancia considerável da séde 
do traumatismo, exercendo uma compressão enérgica 
e regular sobre todas as immediações da ferida. Muitas 
voltas de atadura cobrem henne-ticamente, nas ampu- 
tações, a camada do algodão immediatamente sobre- 
posta á solução de continuidade. Uma constricção é 
desta sorte exercida com a maior regularidade e sem 
dor para o enfermo, atl enta a espessa camada de al- 
godão; e os mais benéficos resultados d'a]ii se origi-- 
nam. E' assim que a afQueneia dos humores para a i>ar- 
to ó difficuitada, e a iuflammação que se devera apo- 
derar dos tecidos taUiados pelo operador mingua á 
falta de alimento. A absorpção dos líquidos derrama- 
dos na ferida ó também assim uotavelmento embara. 
çada, CDi vista da compressão transmittida indirecta- 
mente ás veias da região e ás redes capillares alxsor- 
ventes — sanguíneas e lympliaticas. 

Guérin attribue os mais lisongciros resultados ao 
seo processo curativo, e segundo Benjamin Anger ['l lj 



outros cirurgiões o tem experimentado com feliz exito^ 
taes são Broca, Verneuil, Tillaux e Guyon. Govsselin 
[45], com quanto não tivesse sido tão feliz, recommen.- 
da comtudo o processo, dizendo que — <xcceiia o trata- 
mento ãe Alfonse Guérin, cotn a conãicção, porew , ãe 
habitarem os doentes barracas ap'opriaãas, ou luga- 
res isolados e bem arejados. 

Em uma bella memoria, escripta pelo Dr. Eaoul 
Hervey, vê-se claramente a incontestável vantagem de 
taes curativos em um grande numero de feridos que 
foram assim tratados e facilmente se verifica que o 
resultado manifestou-se sempre favorável, qualquer 
que fosse a natureza do ferimento. E' assim que de um 
traumatismo simples a uma operação importante, como 
mesmo em feridas complicadas, o liabil cirurgião de S. 
Luiz logrou as mais brilhantes e importantes curas. O 
trabalho do Dr. Eaoul Hervey ó um valioso docu- 
mento em favor do curativo do illustre A. Guériu. 

II— OCCLUSÃO PNEUMÁTICA. N'este processo cu- 
rativo figuram os nomes de dous distinctos cirargiões, 
qne inventaram quasi ao mesmo tempo apparelhos mui 
parecidos e obtiveram resultados idênticos, se bem que 
divergissem em alguns pontos as ristas de cada um. 

São elles JuIbs Guórin e Maisonneuve, O primei- 
ro applica sobro o côto um barrete de borracha ou 
outra substancia impermeável, cujo vértice conmiunicíi 

[45] 67í«t7!t.3 chiritrrjifnk ãe THo^iikil m la Charilé. T. i° pas 



7G 



com um tubo que Yí\e ter a uma bomba de aspiração. 
Deste modo subtrao o cirurgião a ferida ao contacto 
do ar. 

Com tal processo imagina J. Guéria obter o 
mesmo resultado qao n^^s feridas subcutâneas © con- 
seguir assim a organisação immeãiata, evitando deste 
modo toda a suppuração e seus effeitos nocivos de de- 
composição. Denomina J. GTuérin de ooclusão pneumá- 
tica ao processo que acabamos le apontar ligeiramen- 
te, e n'elle funda as mais proinettedoras esi)erançaS; 
que em 1866 annuuciou á Academia de medicina de 
Paris, 

Estas idáas de J. Gruórin não são exactamente as 
que presidiram á confecção do engenhoso apparelbo 
do Maisonneuve. O primeiro trata simplesmente de 
affastar a ferida do contacto do ar, e espera assim con- 
local-a nas vei-dadeiras condições de uma ferida sub- 
cutânea, onde, sem suppuração, orgauisam se immedia- 
tamente as partes divididas. Maisonneuve, porem, 
não se limita a uma simples occlusão pneumática, pro- 
cura por meio de aspirações repetidas subtra- 
hir á ferida todos os líquidos segregados, a medi- 
da qu3 o vão sondo; 6 lovando mais longe as 
puas vistas sobre o perfeito aceio da ferida, submet- 
tc-a mesmo no apparelbo a injecções desinfectante,?, 
logo depois aspiradas pela bomba do apparelbo. A' 
occlusão pneumatiea addiciona, p.>is, o liabil cirurgião 



77 



o tratamento antiseptioo. Eni tlieouia parocti magnifi- 
co o processo dos dons cinirgiõos, priucinalmento o 
de Maisonneuve, jmas não sabemos si os resultados 
práticos t©em confirmado taas supposições. Gosseliu 
em sua ultima obra mostra-se indeciso,, e firma o seu 
proceder na falta de documentos que comprovem as 
asserções dos ãom disfcinetos práticos. Não existe real- 
mente estatística publicada por qualquer dos dons 
inventores da occlusão pnoumatica. Um jaizo defini- 
tivo sobre esse processo ó, pois, impossível por em- 
quanto. 

III. CAUTERISAÇÁO ACTUAL.— Este capítulo, quo 
vamos aqui inserir entre os processos curativos, ori- 
gina-se om sua totalidade da observação de cinco 
casos interessantíssimos, que nos foi dado presenciar 
na Clinica da Faculdade, Não se julgue que preten- 
demos rebabilitar a therapautica atteradora do oleo 
íervendo, indistinctamente empregado em todos os 
traumatismos. O que fazemos ó 'simplesmente lembrar 
aos clínicos um processo curativo para certos e deter- 
minados casos, que oííerece vantagens incontes- 
táveis no intuito de oppor uma forte "biirreira á in- 
troducção dos vibriões e bacteries nas redes lymplio 
— venosas. Mo será um curativo capaz de compre- 
hender a generalidade dos casos pathologicos em que 
o traumatismo resultou de um accidonte ou do um 
manejo operatório; mas em casos determinados é a 



78 



sua vantagem do mais palpitímte interesse e digna 
das mais serias cogitações. 

Alem d'isto impõè-nos o dever da enunciação de 
nossas idéas a respeito a novidade do assumpto. 

« A cauterização de uma ferida, diz o Sr. Dr- 
Demingos Carlos [46], regularisa de alguma sorte a 
desordem dos tecidos produzida pela violência extor- 
na, formando-se uma eschara resistonte, que separa, 
de um modo mais ou menos completo, a camada de 
tecidos subjacentes do contacto do ar atraospherico. 
Já estas vantagens eram recouliecidas por alguns 
cirurgiões, que procuravam substituir á acção dos 
instrumentos cortantes o uso das substancias cáus- 
ticas. » 

Tratando particularmente das feridas por armas 
de fogo, regei ta com bem fundadas razões o Sr. 
Dr. Domingos Carlos a cauterização immediata d'ellas, 
não só porque a espécie de escara, produzida pela 
Tioleuta contuzão, evita perfeitamente a acção do ar 
como porque seria augLnentar extraordinariamente o 
coefficiente inflam luatorio, já de si tão intenso, quo 
acompanha esta sorte de íerimentos. Recommenda, 
porem, o illustre cirurgião, tal pratica quando « o pús 
tem determinado a queda desta couraça protectora , 
que se forma sobre a ferida » e «especialLuente quando 
ha receios da supervenção de accidentes, que devas- 

(iC)) Dr. Domingos Carlos da Silva. Ustuão sobre as principais 
quesWes relttUvM ás feridas poi' arma ãcfogo. 1874, pag. 189, 



79 



taai as cuícimaricia de feridos, ou o doente não tem 
gozado,' desde o começo do seu tratamento, das van- 
tpgens de um curativo racional.» [47] 

Em relação ás feridas por arma de fogo, únicas^ 
de que se occupa em sua these o illustre Professor 
somos pcríeitamente do sua opinião. Em relação, 
porem, a outras espécies de traumatismos vamos 
expor o que entendemos a respeito, e que não sabe- 
mos se já teria sido adiantado; mas que om todo caso ó 
de'interesse pratico. 

' Eeferimo-nos ao galvano— cautério em suas appli- 
cações á medicina operatória . 

Talvez nos advirtam que a applicação ao manejo 
operatório do um apparelho como o galvano — caus.. 
tico, nada tem que ver com o processo curativo a 
preferir depois da operação,- mas então perguntare- 
mos: qual a coasequencia immediata do emprego do 
tal apparelho nas operações? — A. produoção de uma 
escara. 

E isso será sem importância? Não influirá sobro o 
curativo a adoptar? Mo merecerá a attenção demorada 
do operador, que após o manejo do bisturi ou da faca 
se transíormii cm cirurgião? Cremos que sim. 

O galvano -cautério é um instrumento cuja acção 
mixta, ó essencialmente complexa e prenhe de vanta- 
josos resultados. Não corta unicamente como a faca 

[IT] Ihiã. pag-. 190, ^ 

11 



80 



ou o bisturi;- Mo queima simplesmeute^ corjo o ícrro 
©ncandeoido: porem sim — decepa e cauteriza. 

E' ao mesmo tempo — bistuii e cautério — guoie e 
brasa — ferro e fogo. 

No progresso dos tempos c.'íOGa!i.i-sô a.-i idéas. ãs 
])ro visões de um século são mnita vez a realidade de 
outro, Os antigos cortavam para depois cauterizar: os 
modernos cortam cauterizando. Foi preciso que os 
tempos sancciouassem o aperfeiçoamento das scieu- 
cias para que os homens realisassem a fusão'' dos dous- 
processos. 

Não so julgue, porem, que estatuímos uma regra 
geral de ,mvAS, excepções; ao contrario estabelecemos 
iudicações particulares de uma regra especial. 

A escara que produz, pois, o galvano -cautério, 
representa um papel importantíssimo no tratamento 
da ferida. Chamamos sobre este pouto a atteução dos 
práticos e proíissionaes. ^ 

O cirurgião não deve por conseguinte esquecer 
que em vez de uma superficio sangrenta resta-lhe a 
extensão do uma vasta queimadura do 3? ou 4? gráo: 
n'estas circumstancias, pois, o curativo é diífereute: é 
o que pretendíamos demonstrar. 

Nos casos cm que tiverem lugar taes indicações é, 
conseguintemente, outra que não a ordinária a appli-- 
eação, medica a empregar topicamente. 

Apreciemos om resumo as vantagens que uma es- 



81 



cara pode trazer em resultado. Si o perigo magQO das 
feridas provem todo do contacto prolongado de um ar 
viciado, onde giram os germens de cryptogamas e iii- 
fusoiios variados; si, de outro lado, a rê(3e lympliatica 
— quer iia parte propriamente capillar, quer na vasta 
extensão das lacunas intercellulares, e a grande sn- 
períicie dos plexos veni)sos, abre franca passagem 

á invasão dos agentes das septicemias, a escara, que 
representa unia cortina impermeável entre a ferida o 
■o ar, ao mesmo tempo que uma rolha adaptada ás boc- 
caiuas veuosas, aos orifícios lymphaticos e ás lacunas 
intercellulares, deve necessariamente impedir que os 
elementos das fermentações attinjam a ferida, como 
impediria, si necessário fôra, a absorpção d'esses mes- 
mos elemontoy quando desenvolvidos. Mo será, pois, a 
escara que produz o galvano- cautério uma couraça 
tão efficaz como a agglutinativa de Chassaignac ou a 
~ colloidéa de outros, si é que não as suporá por perfei- 
tamente adar.t.nr se ás anfraetuosidades da ferida? 
Quem n':ígará, porem, que a applicação da couraça de 
sparadrapo ou coUoide elástico seja um excellente pro- 
cesso curativo ? Niugaem. Pois ninguém terá igual-' 
mento o direito do negar (jue a escara produzida seja 
um excellente apparelho de curativo appenso á superfí- 
cie da ferida. 

E X eu j pl i fí quem os agora , 

Nadi! menos da cinco casos foram por nós obser- 



vados Da clinica da Faculdade. O priiiieiro era o de um 
grande encephaloido desenvolvido sobre o estemo^ 
e foi extirpado cora a maior presteza e brilhantismo 
pelo illustrado oppositor da Faculdade o Sr, Dr. Paci- 
fico Pereira. A febre traumática foi inKignificante e ne- 
nhum accidente sobreveio. O segundo caso foi de incisão 
de fistulas anaes inveteradas, pelo nosso illustrado mes- 
tre o Sr.Dr. Domingos Carl qs,o resultado sendo igualmen- 
te vantajoso [4S]. Esto anno repetio-se tres vezesa ap- 
i)licação galvano-caustica e sempre com vantagem reeo- 
nbecida. Pertencem estes tres últimos casos á clinica 
do nosso illustrado mestre, o Sr. Dr. Moura, Professor 
de clinica cirúrgica de nossa Facnldade. O primeiro 
d'estes casos foi o de itm carcinoma ulcerado do pé. 
Dons dias depois da operação não se havia ainda fil- 
trado atravez da escara a menor gotta de pús ou san- 
gue; nooi mesmo sorovsidade lá havia; a oscara estava 
secca como no dia mesmo da operação. IsTão honvo 
accidente septicemico algum a lamoutar. No segundo 
caso tratava-se de um epithehomado penis, c os resulta- 
dos confirmaram ainda a observação autericr. O terceiro 
era por variados motivos digno do maior interesse. 
Tratava-se do um volumoso tumor clephantiaco do cli- 
toris,pesando 1.340 grammas e ofíerccendo umabaso sos- 



(4') Viil. pag. 30 das nos&as Observações <lrdiinca cintrf/iect, 
onde vem estes ilous factos refericlos, e o iirimc';-o com fodas as luiriu- 
deíií-ias ocorridas. 



8;^ 



sil de 27 ceutimetros de circiuiiferencia.Neste^como uns 
dous últimos casos, ]imitou-soa appli cação tópica a um 
chumaço contido sobre a escara, e. apezar de um curati. 
vo ap})arentemento tão desprevenido, mas muito inten- 
ciouál e racionalmente empregado, nenlnuti acciden- 
to septicemico se manifestou [49). Si nos objectarem 
que foi isso devido á benignidade do nosso clima, 
resx)onderemos: 1" que a benignidade não importa a 
completa iunocuidade; 2" que, si bom sejam lealmen- 
to raras entre nós as infecções pútrida e purulenta, a 
febre traumática assume comtudo certas vezes pro- 
porções exageradas,- 3° que as vastas suppurações, os 
pleugmões diffusos e a erysipela (estados estes todos 
de que escaparam os ditos operados) não são raros en- 
tre nós, antes acompanham frequentes veze^s os cu- 
rativos ordinários ou pelo processo de Dupuytren. 
Em conclusão diremos — que nos casos em que for 
indicada a galvano-caustia, a escara resultante repre- 
sentará o papel de um escellente apparellio protector, 
digno de estudo e observação, o que esse processo 
occlusivo de tratamento local é um dos mais pre- 
ciosos metliodos «íurativos de que possa dispor a ci- 
rurgia em certos casos. Referimo-nos especialmente 
aos cancros de toda a espécie, onde é de temer que a 

[49] Vi(L o n° 3 do InrenUm, jicriodico académico de \^7i, cm 
que demos uma })reve noticia sobre estes tirs últimos casos. 



S4 

reparação dos tecidos não seja possível ou seja-o pelo 
incnos era muito resuuiidas dimensões. 
Uraa observação agora. 

D3vor-se ha deixar a e^scara a descoberto? Enten- 
demos qae não. Na falta de previsão exacta do 
tempo "em que sc daiú a sua queda não deve o ci- 
rurgião expôr o sou doente ás eventualidades do 
dcsprendimonto de uma escara. 

Quanto ao |)rocedimento a seguir depois da queda 
da encara, cutcuderaos que será o emprego de um 
novo apparelbo— agora artificial — d(y perfeita occlusão, 
que trará as maio'"es vantagens p()rque,n'essa occasião, 
tanto da economia em geral, como da superfície da fe- 
rida, serão tendentes ao prompto restabelecimento os 
impulsos vitaes da organização. 

Vamo3 agora lembrar uma v antagem — e das mais 
consideráveis — qae ai)reseuta o curativo pelo galvano- 
oauterlo (permittam-nos a ptiraze), e que talvez não 
tenha sido ainda convenientemente julgada e apre- 
ciada. 

8abe-so que um dos maion^s cuidados do cirur-- 
gião durante o processo operatório ó evitar o contacto 
sobre a ferida do ar mais ou menos viciado dos hospi- 
taes, e que para obviar-lhe a acção recorrem uus ás 
JoçOes immodiatas á operação com a solação phenica- 
da, e outros, mais cautelosos, v. g. Lister, praticam as 
operaçõ3s sob uma cliuva da mesma solução, que lhes 



ministra um apparellia espacial. Pois bom, soai iis- 
cessitar de um apparelho aclréde fabricado, sem cxpo.r- 
se o operador a ter a face fustigada pela chuva actiíi- 
cial, que necessariaruento devo perturbar-Uie a visão, 
sem iucommodar os a&sistentes, e talvez com maia com- 
pleto resultado, consegue o cirurgião evitar perfeita- 
mente a acção dos orgauismos-fermentos, e isso pela 
simples razão de que a ferida ó immodiatamenfce co 
berta, logo que ó produzida — sem que se possa mesmo 
comprehender que medeie um espaço qualquer de tem- 
po entre os doas factos — por uma escara protcctoi;a: 
lembramos o que acima dissemos: o galvano- cáustico 
é — bisturi e cautério — gume e brasa— ferro e fogo, 

O galvano-caustico, pois, preenche as condições 
impostas pelo graúdo cirurgião ingiez Lister, e, em 
certos casos, satisfal-as de modo a merecer toda a 
preferencia. 

Estas ligeiras considerações sobre a cauterização 
actual, como processo curativo, são apenas íilhas da 
pequena observação que adquirimos na clinica da Fa- 
uldade; aos mestres pertence o jalgameuto. 

IV. CAUTEjaiSAÇÃO POTENCIAL— Este processo 
de curativo pertence a Bourgade, que em 1867 o 
apresentou ao congresso medico mternacional reali- 
sado em Paris. O professor Bourgade oífèrecia então 
uma estatisticafavoravel de 95 casos, em geral dos mais 
graves. Emprega este cirurgião o perchlorureto de 



8C> 



ferro em clmmaços sobre a ferida resultante da ope- 
ração. O professor Gosseiiii repetio as experiências de 
Borirgade, e depois d'6lle Fonillciix durante deus annos 
ct'nsecutivos. Às experiências foram favoráveis á opi- 
niác de Bourgade. 

Guyou (50) empregou tal processo em um caso 
de aíDputação 'la perna no ponto do eleição, verifican- 
do 08 í-esuitados proaiettidos por Bourgade. 

E' coaitudo um processo curativo que exige ainda 
estudo aprofundado, e que não podo ser aconselhado 
na generalidade dos casos, porque a observação cli- 
nica ainda o não sanccionou de um modo peremptó- 
rio, tal como é de exigência em casos d'esta ordem. 

Quanto a nós entendemos que este processo em 
certas condições deve oííorecer vantagens reaes e sa- 
tisfactorias, Consideramol-o como processo cie occlusão 
limitada aferida e associada a uma ol)literaq,ão profun- 
da dos vasos da superfície; vantagens estas que não 
devem ser desprezadas em questão como a que nos 
occupía, isto é, o modo pratico de prevenir as septi- 
cernias cirúrgicas. A escara protectora evita, realmen- 
te, o contacto do ar; e a obliteração dos vasos da fe- 
rida, que se estende a uma grande distancia, offerece 
uma barreira infranqueavel á intromissão dos orga- 
nismos e dos liquidos nocivos, resultantes das decom- 
posições que os primeiros mofcivair immediatamento 
US, ferida. 

(50; JSlemcntos f?c cii-urgicu çlimcei. 1873; pag. 508. 



87 



lluícriuJo as vantageus de um processo qualquer 
couvoui cuiijuuctainento apontar-lhe os defeitos, afim 
de que sô yossa, da comparação exacta de umas e ou- 
troa, recunliecer com certeza de que lado desce a con- 
cha da balança. E' o que vamos fezer, disendo que o 
processo de curativo pelo perclilorure to de ferro tem 
a grande desvantagem de causar dores horríveis ao 
doente, as quaes variam extraordinariamente com a 
suKcepitibilidudtí orgânica de cada individuo, e de 
ainda mais estender a sua acção destruidora muito 
longe, motivando muitas vezes vastas desorganisa- 
ções, que augmentam consideravelmente os limites da 
ferida. Isto observámos uma vez na clinica da Facul- 
dade e coníirma-o Guyon no caso em que fez applicia- 
ção do processo de Bourgado, caso a que acima nos 
referimos. Nada mais diremos sobre o perchlorureto 
de ferro, não só porque poucas vezes tem sido entre 
UÓ3 empregado, como também porque mesmo na 
Europa ó clle ainda mal conhecido, e apenas por al- 
guns clinicos couvenientemonte estudado no serviço 
hospitalar. 

Tratando da eauterisação poterjcial não podemos 
deixar em branco o processo de eauterisação em fle- 
chas de Maisouneuve, que tão bellos resultados tem 
oflferecido áquelle cirurgião. 

O mesmo succede com um esoellent« processo 
curativo empregado pelo nosso illustrado mestre o 

12 



m 

Et. Dr. Moura, nos casos do tumores malignos coj,.t 
extirpação . foi realisada a bisturi. Ei'u um processo- 
já de ha muito empregado pelo distiucío cirurgião 
do Hospital da Caridade, íioje professor da clinica ci^ 
' rurgica, e que demonstra claramente que o nosso illus- 
tre mestre já de antemão previa os bellos resultados 
obtidos pelo galvano -cautério, que mais tarde devia 
na Europa ser applicado á cirurgia. 

Com effeito a vantagem que já apontámos no 
galvano-caustico de cortar e cauterizar ao mesmo- 
tempo, vantagem considerável em relação a obstar- se 
o apparecimento de futuros accidentes, e de grande 
importância quando se trata de tumores ou pro-= 
ducções malignas, essa vantagem, disemos, coase- 
guia-a o Sr. Dr. Moura, na falta do galvano-caus- 
tico, ainda então desconhecido emcliuica, empregando 
immediatamente depois da operação pelo bisturi ura 
processo curativo de 'cauterização potencial. Era 
assim que o Sr. Dr. Moura, nos casos de tumores ma- 
lignos, empregava sobre a ferida, resultante de sua 
extirpação, uma camada de pasta do farinha do trigo 
e chlorureto de /Anco, sobre a qual era então adapta - 
do um chumaço, convenientemente sustido por uma 
atadura, um lenço, etc, segundo as circumstancias 
topographicas da sóde do traumatismo. 

E' um processo de curativo pela cauterização po- 
tencial, o que tem dado bons resultados ao illustre pro- 



89 

fessor do clinica cirúrgica, e de alguns dosquaes tíve- 
raos a'felicidade de ser testemunha em seu serviço cli- 
nico no Hospital da Caridade. 

W. DESINFECTANTES. E' esta uma das mais impor- 
tantes classes de processos curativos, quer se attenda 
ao qire relíiti vãmente aelk se conhece em theoria, quer 
reflicta nos maravilhosos resultados de sua appli~ 
cação ministrados pela clinica. Si a occlusão, como 
género de curativ(í, captiva em todas as suas varie- 
<]>ades o ammb do cirurgião dedicado e zeloso de seus 
brios, si a occlusão em todas as suas modificações, 
<iesde a couraça íiggiutinativa de Chassaignac ató o 
engenlioso apparelho de Aiph. Guériu, arrebata em ar. 
■roubos dô enthusiasmo, pelo resultado clinico, a pre- 
dilecção de um grande numero de práticos distinctos 
— de outro lado os desinfectantes, de qualquer espécie, 
■e prinoi^palmente os antisepticos, apresentam qua- 
lidades muito aproveitáveis e com direitos pretendem 
fóros de acceitação nos arraiacs da prophylaxia logo 
após a occlusão perlei ta. O accordo .clinico de altas 
summidades medicas o denota, quando exclusivamen- 
te põe em provas suas qualidades, si ó que não bastam 
para demonf.trar- lhes a importância a parceria com 
que são, até pelo próprio Guórin, addicionadas ao seu 
mcthodo occlusivo. E senão, o que ó a loção de acido 
iih(?nico, que, suecedendo immediatamente ao trau- 



90 



matismo operatório, precede tão de perto a appliençHo 
da primeira camada de algodão? 

E' iautil maior insistência; apreciemos ns pro- 
priedades physico-chi micas de taes agentes thera.- 
peuticos, e, se possível for, devastemos o intimo de 
sua acção prophylatica, procurando a explicação in - 
tuitiva do sou modo de obrar, particular a cada um 
ou a certo e determinado grupo especial. 

Como dividir os desinfectantes? Inútil é tcntal-o 
sí um accordo anterior não estabelecer lhos a signifi- 
cação definitiva. Para nós o desinfectante é todo o 
corpo que faz desappare^er, quer mascarando, quer 
destruindo, o cheiro infecto de uma ferida, f(5co per- 
manente de decomposição adiantada. E', bera se vê, 
uma definição vaga e quasi indefinida, que se estende 
do perfumo o mais delicado ao antiseptico de maior 
intensidade.' O aroma da tiôr, que substituo o gnz infe- 
cto proveniente do insecto que íalleceu-llre junto á 
baste, como o vapor do alcatrão que arde no brazoiro 
de uma enfermaria, e a paralysação que o pbenol vae 
produzir sobre a vitalidade dos proto-orgínismos pro- 
liferautes do uma ferida em putrefacção— tudo isto 
tem uín cunho de affinidade indestraetivcl, tudo isio 
elimina a fctidez, encobre ou paralysa a decomposição, 
agrada ao olfacto e, m.ais ou menos, conduz da putre-. 
facção á vitalidade, da decomposição á rejíaração jt ■ 
gauicn, da n^olrstia á saúde. Vasta, pois, como á a 



91 



classe dos desiDÍectaiitcs, nieiXTc diviEões, e, sem con- 
testação, a ellas rratiiralmento se presta pela diversi- 
dade de seos elenjentos componentes o variedade de 
acyão particular. Cuni Benjamin Anger dividiremos os 
desinfectantes em mecânicos, cJihnicos e aniisepticos. 
Para os dous primeiros grupos rão será diííicil ex - 
plicar-llies a acção peculiar; no terceiro, porem, jul- 
gamos descobrir uma propriedade que lhe é intrínse- 
ca. 

A acção dos ãesivfeciantes mecânicos é simples- 
mente uma absorpção. Porosos, como são, infiltram-se 
dos líquidos que traussudam da fesida, e, mais ou 
menos, íabricam-lho uma capa, que, negando accesso 
ao ar que a circumda, previne nova decomposição e 
seus immediatos resultados. Não se limita aos liqui- 
des a absorpção de taea ngentes: ostende-se igualmen- 
te d todos os gazes produzidos. E' o typo do taes ab- 
sorventes o carvão, com especialidade o proveniente 
da combustão dos ossos, que, com surprehendente 
facilidade e em um tempo muito limitado, se apodera 
de um volume de gazes ou líquidos extraordinaria- 
mente superior ao sou próprio volume. E' sobre esta 
propriedade que se funda o uso tão conhecido e vul' 
gar da mistura dos pós de carvão, quina e caniphora^ 
tão habitualmente empregada na pratica da niedecina- 

Voltando á apreciação dos processos curativos 
após as operações, tomos incontestavelmeute de ceder 



92 



uui dos lugares de hyn\>. aos desiiifectautes em geral 
e aos antisopticos em particular. Si a uma arejação 
conveniente, em um aposento vasto e acceiado, porem 
apenas habitado por um numero restricto de feridos^ 
se addiciona o emprego regular e cuidadoso da per- 
feita desinfecção das íeridas,evitando se caprictiosamen- 
te todo o contagio vindo do exterior,^ ó quasi certo 
quo as infecções septicemicas sejam perfeitamente 
prevenidas, em condições cliinatericas favoráveis, como 
as do norte do Império que habitamos, do Egypto, 
da Algéria, etc, ou que, pelo menos, se reduza consi- 
deravelmente o numero das victiraas que houvessem 

por ventura de fazer taes intoxicações. 

Temos presenciado no Hospital da Caridade cres- 
cido numero de feridos tratados pelo acido phenico 
em solução e pela agoa alcoohsada; e sempre de- 
monstrou a observação o mais favorável resultado, 
verdadeiramente admirável quando se compara com 
as suppuraçõos abundantes e fétidas que temos sempre 
visto succeder ao tratamento systematico pelo proces- 
so de Dupuytren, com as clássicas pranchetas untadas 
deceroto on a compressa crivada, os chumaços so- 
brepostos, etc, tratamento que, sobre nauseante e 
repulsivo, ó ii^muestiouavelmente muito mais demo- 
rado o sujeito a consequências desastrosas. O largo 
uso' que temos ultimamente presenciado da solii - 
ção j)]]enicada na clinica da Faculdade, anima nos a 



93 

consideral-a como do vantagem inquestioiíavel no 
intuito de evitar as scpticemias cirurgicas que com ■ 
plicam os trauma fcisaios. Malaport e Pichot so apro- 
veitaram com vautagora d'6sta propriedade do carvíÍL» 
para fabricarem os sons fios carboníferos, do utilida- 
de recQDliecida era certos curativos. 

Os desinfectantes chimícos, esses teem uma acção 
diversa, e devida toda ás combinações salutares a que 
vão dar lugar sobre a superficie mesma da ferida. São, 
em primeiro lugar, certos saes que teem por base 
óxidos metallicos, e que se vão combinar com o acido 
sulphydrico e o ammoniaco desenvolvidos na ferida: 
taes são os saes de mungenese, ferro, chumbo, etc. 
Segue se o iodo, o chloro e o bromo, cuja acção se 
dirige igualmente aos mesmos corpos que os sãos me- 
tallicos acima citados, ou que se limitam á combus- 
tão da matéria orgânica, como succede com os man - 
ganatos e permanganatos. 

Vê-se, pois, que, ou absorvendo liquidos e gaze s 
infectos, ou substituindo os corpos que produzem a 
fetidez por outros inodoros ou agradavtíis ao olfacto 
é que simplesmente obram os desinfectantes mecâni- 
cos e chimicos. Um obstáculo directo á putreíacção 
não vemos que realmente provenha de §ua acção 
modificadora. Não acontece, porem, o mesmo com os 
antisepticos. Fallando simplesmente de alguns dos mais 
usados em cirurgia cumpre enumerar: o álcool, o 



94 



acido thymico, o cthcr, a usseucica dò eucalyytus, a 
creosota, o coaltar, o alcatião, a benzina, o acido 
phenico, etc. 

# Como obram taes substancias'? qual a sua acção 
sobre as feridas? 

Opyoem-se á patrefacção, o quo equivale a d izer 
que impode.ji a fermentação mórbida que tom inevi - 
tavelmente séde em toda a íerfda em suppuração, ex- 
posta á acção prolongada do ar atmosplierico, E' aqui 
que uos parece podemos aveutuiar uma idéa sobro 
O modo de obrar de taes preparações.. Jcá por vezes 
repetidas e em diversas partes d'este eseripto ligámos 
peifeita adljcsão á theoria animada da fermentação; 
devida í\o geuio investigador e reflectido de Pasteur. 

As myccdineas e os vibriõ ís do illustre ohimico 
acfjeitaínol-as para a e>:pHo£ção dos variados phono-> 
menos que acompanham a fermentação, Spóro' ou 
ovulo — em bôas condições de calor e humidade — o on- 
das renovadas de ar atmospherico, eis a fermentação 
em uma ferida quo sappura. Como evital-a, pois, 
em tal caso? Negando o accesso completo ao ar ! 
E' exactamente o que se obtém pela occlusão, e 
os resultados cliuioos são geralmente conhecidos 
e devidamente apreciados; mas não ó isso o que fazem 
os antisepticos: o ar continúa a banhar a séde do 
traumatismo. E', pois, sobre outro elemento das fer - 
mentações que dirige sua acção o antiseptico, e esse 



95 



fJeraonto ó, fio nosso ver, o orgaaisino vivo que rosi- 
<ie.na feiida. Perturbando, por uma acção nociva^ 
toxica, corrosiva talvez, a vitalidade própria do proto- 
orgauismo, até produzir-lhe a desagregação mollecular, 
o antisoptico anniquila a bacterie, começando por 
invalidar-llie os movimentos, ou desorganisa a my- 
cedinea. Sobre o spóro ou o ovulo, como sobre os 
microzymas {51) já desenvolvidos, actúa o antisopti- 
co, e esta acção ó para elles cssencijilmente lethife- 
ra. Em resumo o antiseptico mata o microzyma. 

E' assim que explicamos como paralysa aa fer- 
mentações mórbidas e as decomposições cadavéricas 
o liquido antiseptico. Seui microzyma não lia fermen- 
tação, e o antisoptico envenena, destroe, matao mi- 
crozj-ma. 

Já tínhamos esoripto estas linhas sobre a acção 
dos antisoptioos quando, com a maior satisfacção, en- 
contrámos na obra de Henri de Parville, de 1873, in- 
titulada — Oauseries scientifiques — um excellente arti- 
go, á pag. 215, sobre os estudos mais recentes em re- 
lação ás substancias antifermentesciveis e sua appli- 
cação á medicina . 

Começa Henri de Parville por ánnunciar a desco- 
berta recentissima ..de Dumas de dous antifermentes- 
civeis, cujas propriedades medicas trataram de estu - 
dar Rabuteau, Papillon, Picot, Cbampouillon, etc. São: 

5!) De micros, pequeno, e z'jme, íermenio.^ 

13 



9G 

Q_ silicato e o borato dc socla. O autor lembra SGn»sa- 
tamente que será desdo agora íacil explicar por esta 
acção particular dossaes de soda as propriedades cu - 
rativas, até hoje mal explicadas, das aguas raiuoraes 
Que conteem silicatos alcalinos. 

Não ó esta, poreDi, para o nosso ass.«!Tipto a parte- 
mais interessante do artigo citado, e sim a que passa- 
mos a expor, porque vem demonstrar claramente que 
não foi de phantasia a explicação que demos sobro o 
modo de actuar doa antisepticos. O que em tlieoria 
ali tinbamos estabelecido vimol-o perfeitamente de- 
monstrado pela observação. Com eífeito Grace Cat- 
vert fez urn estudo cuidadoso e do maior alcance the- 
rapoutico sobro- todas as substancias que, om um li- 
quido fermontescivel, previnem o desenvolvimento- 
dos infusorios o do mofo (52), ou os matam quando 
já desenvolvidos. 

E*- de tal importância para o assumpto que uos- 
occupa o estu<5o analytic) de Galvert, que passamos a 

[52j o autor diz moiuisíure, que vem a ser, segundo Lifetré e 
Robin, cogumellos constituindo o maior numero das niucedineas ou mW- 
torinscts, que se desenvolTem na maior parte das substancias de origem 
Orgânica em via de alteração, sobre tudo se «ão acidas. E', parece-no3,. 
o qne nós vulgarmente chamamos m<5/o . Segundo ]iittró e Robin, a pa- 
lavra franceza moissismre corresponde em italiano a muffa, em hes- 
panhol a moho e no latim a mucores, plural de mu»or, cuja tmdueçíío 
portugueza é holôr, môfo. Julgamos, pois, que se não pode verter d(. 
otitro modo a expressão do Autor. Cogumello nSo exprime precisa- 
mente, porque design» Uma classe inteira, de que mowsissure é uma 
espécie, c micedineaã também não, porque constiliíem^ uma família que^ 
com quanto constando pela maior parte (\e minssisture, contem com- 



97 



transcrever oai sua integra o roiíamo cjue d'elle tiu 
Parallo (;"3). Eil o: 

« O acido cresylico por si só destroo os animalcu - 
los, c previne sua roapparição, ao menos durante ós 
oitenta dia« em que teve lugar a experiência. 

« O acido phenico, o sulfato do quinina, o chlorure- 
to de ziuco e o acido sulfúrico destroem quasi inteira- 
mente os vibriões, e não do todo, porque íicam ainda 
alguns depois da experiência. O acido picrico e o sul* 
phophenato de zinco destroem a principio qiiasi intei- 
ramente os vibriões, mas não lhes impedem o desen- 
volvimento posterior. O acido prussico e o acido sul- 
furoso, destroem no começo os animalculos, mas não 
previnem seo desenvolvimento. 

«o autor classifica em seguida entre as substan- 
cias que, depois de terem destruído os vibriões, favo- 
recem-lhes o desenvolvimento os compostos seguin- 
tes: hypoohlorito de cal, biclilorureto de mercúrio, 
chloro, soda cáustica, acido acético, acido nitrico, sui- 
íato do íerro, otc. As substancias, emfim, que fica-, 
ram sem acção sobre os animalculos foram: o acido 
arsenioso, o sal, o cblorureto d-e potassa, o bisulfito 
de cal, o hyposulfito de soda, a essência de tereben- 
thina o a pimenta. 

« Favorecera a producção dos animalculos 0 faci- 
litam a putreíacção — a cal, o carvão regetal, o per- 

f53J Vid as uosís;; Observação'; cl^nicêi, cirurffic», pag-3 7 a 53. 



9-8 



fljanganato àe i)otas sa, o amroomaco e o phosphaíxj 
de soda. 

« O carvão vegetal é muitas vezes eiiiprc gado ^ara 
purificar as aguas e recomníendado como anti-fermen- 
tescivelj o lie absorve sem contestação possível os ga- 
zes odoríferos, inas é tjoda a sua utilidade, segundo o 
Sr. Calyert, pois qu& o carvão apressa a putrefacção. 
E' um pouto ainda obscuro da scíeaoia. O Tbichlo- 
rureto de niercario, tantas vezes recommendado, fa- 
vorece também, ainda segundo o raesmo autor, o de- 
desenvolvimeato dos animalculos. São pontos inipor- 
tantissimos a verificar, porque estão eni contradicção 
com praticas muito inveteradas, 

» s Não são sempre as substancias que obram sobre 
os vegètaes microscópicos as mesmas que impedem 
o desenvolvimento dos animalculos; existem razões 
para estaboleoer diftereuças, principalmente porque ha 
teiidencias a attribuir a fermentos aniajacs as febres 
thyphoides e a vegètaes as paludosas. 

« Os ácidos cresylico e i)lienico matam o môfo; o 
mesmo acontece cora a cal, o sulfato do quinina, o 
acido prussico o a pimenta. Os ácidos sulfuroso, acé- 
tico, os hyposulíitos, os phosphatos, a essência de 
t erebenthina e o carvão vegetal não obram sobre as 
vegetações microscópicas^ t) bicMorurete de mercúrio 
não impede tão pouco a formação do môfo. 

«Assim, os ácidos cresylico e iticnico, o sulfato 



99 



do quinina e a pimenta malain scLvetutlo o mcfo o 
«iovem ser aconselhados de preferencia* contra' as in- 
fecções Dnycodermicas. E' bom accrescentar que as 
soluções empregadas peío Sr. Grace Calvert eram de 
uma millesima; significam, portanto, unicamente que 
n'esía dose é ainda activa a substancia. Elie não ma- 
nejou maiores quantidades aíim de evitar a coagu- 
lação da albumina, que figura entre os liquides 
fermçntesciveis e que se torna a achar da mesma 
maneira na economia animal. Mosmo na millesima 
parte as substancias indicadas são toxicas para o 
môfo. 

. « Já por certo se terá notado que o sulfato dQ 
quinina figura na primeira linha entre os antisepticos. 
Ora, resulta dos trabalhos do Sr. Salisbury, professor 
na Escola de medicina de Cleveland (Ohio), e do Sr. 
Balestra, que as febres paludosas são produzidas 
pela introducção na economia de cellulas de um gé- 
nero de algas muito parecidas ás palmellce. O Sr. Sa- 
lisbury produz a seu falante a malária fazendo respi- 
pirar os spóros das algas citadas. Comprehender-se-ha 
agora a acção da quinina, que será a de impedir o 
desenvolvimento das cellulas cryptogamicas. Mais 
energicamente ainda obra ò acido phenico. 

K Ora, na ilha Mauricia, os Srs. Barraut e Jessier 
teem curado com este acido lebres que se tinham 
mostrado rebeldes á acção do sulfoto de quinina. A 



106 



ereosofca, empregada com bom êxito, deve obrar da 
mesma maneira. 

<í Vê sô que estes factos, por sua eatreita concor- 
dância, prestam-se um mutuo appoio e esclarecem 
a etiologia das febres inter mi ttentos. Temos espe- 
rança de que o mesmo succederá com as febres thy- 
phoides e talvez com o cholera, o que estas invés-- 
tigaçõos de chimica p-ura trarão em um futuro que 
não está remoto verdadeiros progressos á arte de 
curar. » 

Pouco tempo depois da leitura d'estas interes- 
santes experiências de Calvert offereceu-se nos — uma 
excellente opportunidade para pol-as em prova, de 
modo a verificar as conclusões do mesmo autor. Em 
um roedor da espécie Cavia cobaya (Desmarets), vul- 
garmente conhecido entre nós sob a denominação de 
porco ã^a Inãia, cucontrámoíí um numero elevadíssi- 
mo de parasitas de limitadas dimensões, de uma alvura 

extrema e semelhando uma lendia allongada '(larva 
do Pediculus capUis de L. ou piolho). Achavam-se 
estes parasitas (que não verificámos que espécie 
pertenciam por faltar-nos na occasião o microscópio) 
intimamente adherenfces á base de cada pello do ani-- 
naal, podendo S8 d'eslo modo julgar quão elevado seria 
o seu numero e prodigiosa a reproducção. A' vista 
de um ta! caso e tendo ainda recentes na memoria as 
çonclasões de Calvert, lembrámo nos do submetter o 



101 



pequeno roedor a um baulio contendo uma pequeoa 
porção -do acido pheuico. 

Fizemos realmente uma fraca solução carbolisa- 
da ej com ella humedecemos todo o pello do ani- 
mal, procurando molhal-o até á base de sua implan- 
tação. Feito isto deixámos seccar o pello, e com 
grande satisfação reconhecemos que um grando na- 
mero dos parasitas tinha perecido: os pellos apie^un. 
tavam-no» então poucos e rareados. Com três banhos 
mais reduzio-se a tal ponto o numero dos parasitas 
que mal se encontrava um ou outro, aqui on alli adhe- 
rente ao pello do animal. 

E' esto o estado da nossa experiência no mo- 
mento Qm que traçamos estas linhas, lastimando não 
poder ainda n'oste trabalho relatar o final da nossa 
observação, porque desejanjos ver se pelo uso con- 
tinuado do mesmo medicameuto so conseguirá o 
completo aniquilamento dos parasitas, obviando ao 
mesmo tempo a sua reapparição. Ha porem, motivos 
para assim accreditar, por serem jȇ hoje muito raros 
os parasitas, d'autes tão numerosos quanto os pellos 
do animal. 

Folgamos em|referir mais esta ■experieucia, con- 
firmativa dos trabalhos do Calvert. 

VI. CURATIVO HYDROTHERAPICO.— Occupamo- 
nos com o maior prazer d'esta espécie de tratamento 
por termos tido occasião de presencear casos summa- 



102 



mente interessantes, e que tiveram lugar o anuo pas- 
sado na clinica cirúrgica da Faculdade, então interi- 
namente dirigida pelo nosso illustrado mestre o Sr. Dr. 
Domingos Carlos, Em um caso empregou-3e simples- 
mente a embehição, em outro a imm&fsão permanente 
e em um terceiro âirrigação continua. O primeiro era 
um caso de ferida incisa na faoo interna da articulação 
tibio-tarsiana, ,0 segundo de ferida por esmagamento 
dos dedos da mao e o terceiro de fractura comminu- 
tíva dos ossos da perua, complicada de contusão e fe- 
didas. A' agua íôra addicionado o álcool nos dous últi- 
mos -casos e no terceiro também mais tarde uma solu" 
ção alcoólica de acido plienico. 

Si não fora receiar demorar-nos por demais refe- 
ririaraos os brilhantea resultados colhidos n'est6S tres 
casos que observámos (54). Consideramos a immersão 
continua — que infelizmente só em certas regiões do 
corpo pode ser empregada — como um verdadeiro tra- 
tamento por occiusão, no qual a agua substituo per- 
feitamente a couraça de -algodão ou outra qualquer 
substancia, e em que o álcool addicionado accrescen. 
ta ás vantagens da occiusão as qualidades inberentes 
a um curativo ãntiseptico, além d|^ que ministra a 
agua fria por suas propriedades sedativa e antiphlogis- 
tica. Não a aconselhamos, porem, senão durante os 
primeiros tempos, porque demonstrou-nos a observa- 

[541 Henri de Parville — Cavsines micMUfiques. 1872, pag. 21^. 



103 



i^iio (iue no periodo do cicatrisação a ischemia que 
determina a agua iria sobro os botões carnosos dimi" 
niio-lhos a vitalidade o a força regeneradora, donde 
resulta a demora do restabelecimento do doente. A 
immersão coutinua, principalmente, e a irrigação quan- 
do bem feita e uma vez que a ferida so ácbe resguar- 
dada por compressas bom adaptadas á sua extensão, 
parecem' -nos meios poderosos de obviar até certo pon- 
to ás infecções septicemicas, mormente quraido so ti- 
ver addiciouado á agua a solução alcoólica de acido 
phenico. 

Facilmente se comprehenderá 3omo possa o cu ■ 
rativo hydrotherapicò prevenir as septicemias cirúr- 
gicas, notando-S9 que representa elle, priucipalmente 
na immersão continua, uma verdadeira forma de cu- 
rativo por occlusão do mais satisfactorio resultado. 
Accrescentaado-se a isto a acção tão benéfica da agua 
fria nos primeiros dias de um traumatismo, em que 
a reacção.infiammatoria é d© temer assuma exageradas 
proporções, seus efFeitos sedativos e a grata im- 
pressão de frescura que offerece ao ])aciente, facil- 
mente se conceberá de que vantagem deva ser um 
tal género de curativo. Eatre nós, parece- nos, deve 
ser de excellentes resultados a hydrotherapia ciiur- 
gica, convenientemente applicada om exigidas cir- 
cumstancias. A temperatura commun d'agua em nossa 
terra e o ^ráo thermometrico elevado da atmosphera 



104 



levam a crer que seja tia maior vantagem um meio 
que, antipMogisfcico e altamente scílativo, evita ao 
mesmo tempo o contacto de uma atmospliera iu- 
íeccionada. O Sr. Dr. Domingos Carios, a ciya clini- 
ea pertencem os casos de liydrotlierapia cirúrgica 
que temos observado^ d-eposita a maior confiança 
em seus maravilhosos resultados, e em sua impor- 
tante These de concurso refere factos por mais do 
um motivo interessantes, figurando entro outros um 
occorrido na campanha do Paraguay no serviço cli- 
nico do nosso illustrado mestre o Sr. Dv. Rodrigues 
da Silva, eno qualesfce distmctissimo Professor obte- 
Te os mais satisíactorios e brilhantes resultados. 

Estas vantagens, reaes nos primeiros quinze ou 
Tinto dias após o traumatismo, transformam- se im- 
mediatamente depois^ como já acima dissemos, em 
verdadeiros obstáculos á realisação da cura, pelos- 
offeitos altaDieute emollientes que vem aíinal a 
agua fria a determinar sobre os tecidos.. A vitalidade 
das partes diminuo entãof as cellulas infi.Itram-se 
demasiadamente; a epiderme entumesce, despega-se 
6 cae; finalmente a tonicidade orgânica, tão neces*^ 
saria aos phenomenos de reparação dos tecidos, d^sc© 
extraordinariamente, e verdadeiros phenomenoa de 
gangrena húmida podem então se apresentar. 

N^estas circumstancias, pois, cumpre ao cÍFurgião 
dirigir em outro sentido o tratamento, incetfindo então 



/ 



105 



ocuratíYO ordiaario ou ligeiramente adstriageute e esíi- 
mulunte, N'e3sa oecasiãOjporemgá estarão íecliad as pela 
imembraua ás botões carnosos as portas de entrada aos 
organismos fermentos, e o perigo das septicemias pOj, 
íissim dizer já conjurado. O curativo liydrotherapico 
gá então terá cumprido sua missão preservativa, o seu 
papel mais importante. 

Não se julgue, porem, de nossas expressões, que 
«eja então permittido ao clinico consciencioso expo' 
as feridas de seus operados á acção do ar impuro da& 
enfermarias. 

O que tal fizesse em breve teria de que arropen- 
der-se; porque, depositando-se sobre a camada de bo- 
tões carnosos, mais ou menos húmida e anfractuosa, o& 
germens da fermentação, dentro em pouco teria lugar 
luiia proliferação d'esses organismos, cuja menor con- 
sequência seria iuevitavolmente o retardamento da oi- 
catrisação. 

E' assim que explicamos como se vê reabrirem-se 
feridas quasi cicatrizadas, no momento em que o cirur- 
gião descura- se de íurtal-as ao contacto do ar. 

VII— COMPRESSÃO.— E' este um dos mais inte- 
ressantes processos de curativo de que possa a cirur- 
gia lançar mão após as operações, quer como accea-^ 
sorio indispensável do alguns dos mais importan, 
l«s e engenhosos, quer íiualmente, como constituiu-- 



106 



do em unidade absoluta um dos mais úteis cm re- 
lação á prophylasia septicemica. 

Como accossorio indispensável viraol-o íigurar 
distinctamente no engenhoso apparelho occlusivo 
de Alph. Guórin, prestando os mais valiosos servi- 
ços, de que se não farta de aproveitar o illustre 
cirm^gião. Como constituindo por sí só um excel- 
lente processo de curativo vamos íigora estudar a 
compressão. Não se costuma em regra geral, nos 
livros clas3Ícíos qUe conhecemos pelo menos, estudar 
separadamente a compressão como methodo de cu- 
rativo após as' operações, mas é mal entendida- 
mente que assim o fazem os mestres da cirurgia. 

Inspira-se -este nosso capitulo sobro a compres- 
são nas licções que do nosso illustre mestre, o Sr. 
Dr. Domingos Carlos, ouvimos na clinica cirúrgica, 
e principalmente da leitura da importantíssima con- 
ferencia d'cste distincto professor sobro a coraprcs- 
são ciriirgica,n ultima de suas apreciadas Conferencias 
de clinica cirúrgica (ô/)). 

Vejajnos rapidamente em que consiste este pro- 
cesso curativo e quaes as vantagens por eile auferidas, 
bem como o mecanismo por que estas ultimas se pro-' 
duzem. 

Nos casos em que a reunião immediata foi pos- 

(55; I5r. Domingos Carlos da Silva. ConfcrDiciui de Clínica cí- 
ntrgicei. 1872; pag. 40G a 428. 



Wí 

ta ém execução é o processo compressivo o melhor e 
ú mais racional a empregar, porquanto, si na realida- 
de está a ferida pela juxtaposiçâo de seos bordos 
isenta do grave perigo do contacto do ar, o que res- 
ta ao cirurgião cioso de seus brios ó tão somente evi- 
tar que cheguem-llie á superfície os subsídios inflam- 
matorios, e isto por duas razões, que passamos a 
apresentar: 1^ porque não convém que a onda san- 
guínea impellida com maior violência á superfície da 
ferida do que o faz nos órgãos e parenchymas— e a 
razão ó obvia logo que se reflicta que o sangue vem 
impellido por um coefíiciente maior, uma vez que sae 
de vasos volumosos, onde a propulsão cardíaca ó maia 
mten?ae a elasticidade econtractilidade arteriaes mais 
fortes e vigorosas — porque não convém, dizemos, que 
recebam a superfície da ferida e os tecidos subjacen- 
tes até alguns centiraotros de distancia, um abalo vio- 
lento, qual o de semelhante propulsão, o calor que 
tal massa do sangue lhes transmitte, e finalmente a 
repleção, o engorgitameuto, ou melhor, o afogamento 
dos tecidos em ondas de sangue, dotado de todos os 
elementos favoráveis ás mfiammações. Com taes sub- 
sidies a irritação promovida pelo traumatismo ope- 
ratório nos tecidos acha-so nas mais favoráveis con- 
dições do rápido desenvolvimento, e em um instante 
se ateara de um modo assustador as combustões nu- 
tritivas dos elementos da ferida, d'antes irritados e 



108 



agora alimentados por combustivel da primeira qiaa- 
lidado e na mais elevada proporção. Yê-se, pois, que 
assim se podo desenvolver uma furmidavel inâam- 
mação, cujas termiuaçõés se tornam de fácil e intui- 
tiva previsão. Eis, portanto, um dos perigos de aban- 
donar o membro operado aos azares de um violento 
aflauxo arterial: eis também a razão porque ó indis- 
pensável em casos taes a compressão. Ella evitará ne- 
(íessariamente o aftlaxo exagerado .para a parte, e 
assim, negando elementos ao .-iteamento das com • 
bustões patliologioas, impedirá as phlogoses locaes 
de assustadoras consequências, resultando ainda uma 
vantagem, que se não deve desprezar, isto ó, a reab- 
sorpção pelos lymphaticos e pelas veias capillares do 
soro exsudado na meE>ma superficie da ferida pelo 
vasos e tecidos mais ou menos irritados. 

Esta apreciação que acabámos de fazer do modo 
de obrar da compessão obriga-nos, autes de apontar- 
llie o segundo dos motivos que devem motivar- lho 
a preferencia, a descrever o moãus facienãi da applica» 
ção ou o processo curativo em sua execução. 

Logo que se reconheça que ficaram perfeita- 
mente adaptados os bordos daíerida, applica-se sobre 
elles um espe-sso chumaço embebido em uma solu- 
ção antiseptica, sustentando-o por meio do voltas 
circulares que lhe prendam as extremidades á peri- 
pheria do côto. Depois de bmn guarnecido esto se^^ 



109 



gue-se com a atadura cm voltas fortemeute com- 
pressivas até a rais do menibro, descendo depois até 
o côto para, depois de reforçar a carapuça que o 
ÇQvolve, de dovo subir em espiraes á baze d6 im- 
plantação do membro, etc. 

Foi assim que vimos sempre pratloar-se no ser- 
viço hospitalar da clinica da faculdade. 

Passemos agora á segunda vantagem que des- 
cobrimos no emprego de ura tal processo. 

Sab6-se perfeitamente qao autes de unirem-se 
03 lábios de uma ferida esteve ella por tempo mais 
ou menos longo em contacto do ar, e que, se não 
houve a precaução de laval-a com uma solução phe- 
uicada ou de um outro antiseptico, ficam n'ella de- 
positados os germens do uma fermentação de no- 
civos resultados. Ora, a compressão do apparelho, 
quando convenientemente empregado,impe dindo a che- 
gada do sangue em borbotões á parte,e,portanto,o calor 
e todos os elementos de uma decomposição,ao mesmo 
tempo que favorece a absorpção do sôro á medida 
que vae esto seudo segregado, diminuo necessa- 
riamente as condições favoráveis a uma decomposi- 
ção e nega elementos ás fermentações. Não diremos 
que estas se não dêem absolutamente,ma8 fal-o-hão em 
tão reduzidos limites que a intoxicação do sangue 
será desde então impossível, porque os emuuctorios 
bastarão par^ expellir em pouco tempo, pelas leis da 



110 



resistência vital, os orgauismos-fermeatos que po- 
derião trazer a desorganisação total da economia. 

E' esto um processo curativo dos mais lisougeiros 
resultados e que, nas mãos de práticos notáveis, tem 
obtido as mais brilhantes curas. Alpb. Gruériu, como 
vimos, o addioiona ao seu tratamento ocolusivo, e o 
Sr. Dr. Domingos Carlos tem com elle logrado os mais 
satisfactorios resultados clinicos. Si quiséssemos exem- 
plificar em um só caso as vantagens da applicação 
compresvsiva, provadas por seus bons eff eitos e con- 
traprovadas depois pelos perigos que resultaram do 
sua subtracção provisória, recordaríamos um facto 
da clinica do nosso illustrado mestre, o Sr. Dr. Moura, 
Decorrido em seu curso de 1871. Eeenviamos, porem, 
por amor á brevidade, os leitores ás Conferencias ãe 
clinica cirúrgica do Sr. Dr, Domingos Carlos, ondo 
detidamente verão a descripção do facto em uma e 
as vantagens obtidas em outra das mesmas conferen- 
cias. 

Apenas aqui diremos que o bello estado local e 
geral, obtido pelo uso da atadura compressiva, foi 
logo substituído por um aggravameuto correspon- 
dente apenas cessado o seu emprego, voltando tudo 
depois ao estado primitivo quando reincetada a com- 
pressão. 

Julgamos ter adiantado o sufiaciente para qu© 



111 



íique estabelecida a alta importância preventiva da 
compressão nos curativos das feridas. 

Terminando aqui o que tínhamos a dizer sobre 
os processos c .irativos não nos podemos furtar, po- 
rem, á seguinte observação: que no nosso paiz as con- 
dições climateiic3S oppoom-se de um modo admi- 
rável ao desenvolvimento das septicemias cirúrgicas. 

Folheando os Archivos da clinica cirúrgica da 
Faculdade, de 1866 a 1S74, apenas deparámos com 
tres casos de septicemias supervenientes á operação . 
Teve lugar o primeiro em 1869 e terminou pela 
morte. A respeito d'este caso acha-so o seguinte 
no competente livro — carie dos ossos do carpo e 
da articulação radio- carpiana: entrada a 9 de Marça; 
operação a 15 de Abril; morte a 5 de Junho. — O se- 
gundo caso é do mesmo auno. Tratava-se de ferida 
por arma ãs fogo no 3° inferior da tibia: entrada a 18 de 
Setembro; amputação no ponto de eleição no mesmo 
dia; morte a i de Outubro O terceiro pertence á cli- 
nica de 1S73 e foi por nós observado. Tratava-se de 
uma fractura por esmagamento dos ossos da perna no 
terço inferior, complicada de hemorrhagia, luxação e fe- 
rimentos: entrada a 16 de Agosto; operação no mesmo 
dia; invasão ãapyohemia a 25 cio mesmo mez; cura. 

De propósito deixámos do citar um facto também 

por nós observado na clinica da Faculdade em 1872: 

r por não ser a infecção purulenta subsequente 

15 



112 



á operação; 2" por ter entrado o dooute já quasi 
moribundo e no ultimo poriodo da moléstia, sendo 
já numerosos os abscessos metastaticos o intenisa a 
septicemia, denunciada por unia febre abrazadora, 
calor correspondente, delirio, etc. 

Já se vê, pois, que, ajudado da boneíica influ- 
encia do nosso ameno clima, cujas condições são 
da maior inocuidade para os íeridos, pode o cirurgi- 
ão descançadamente espevar a perfeita prophylaxia 
das septicemias, se tiver o cuidado de empregar os 
processos curativos que acabámos de enumerar, di- 
versamente combinados segundo circumstancias es - 
peciaes, que só o tino do homem d'arte pode e deve- 
convenientemente interpretar. 

Isto quanto a nós. Si, porem, nos exige igual- 
mente a Faculdade o juízo deíiuitivo sobre o que s© 
passa na Europa, no Sul do nosso Império, nos paizes 
frios e temperados emflra,então diremos que apenas mo- 
dprnamente se fiaz um estudo acurado dos melhores 
processos curativos; que a pratica não disse ainda a 
ultima palavra: mas que Lister, Guórin e outros 
.suppoem ter já resolvido o problema, o primeiro 
com o acido phenico e o segundo com o seu appa- 
relho de occlusão. O processo curativo d-este ulti- 
mo cirurgião é, com effeito, admirável e, segundo 
©lie,, capaz de evitar as septicemias cirúrgicas. 



113 



ComO; porem, já o dissomos, não existo ainda 
uma estatística geral, collecionada das particulares do 
€ada serviço bospitalar, para que se possa emittir a 
ultima palavra sobre tal assumpto- Sem este dad*^ 
irrecusável iniposaivel se torna uma asseveração de- 
fioltiva. 

Precisando, porem, pôr termo a esto trabalho, 
concluirem.os com as autorisadaa palavras de um 
(ios mais eminentes cirurgiões modernos, o pro- 
fessor Gosselin, era suas ultimas licções de cliuica 
ciruigica, publicadas em 1873, o cora as quaes o 
iliustre professor de clinica cirúrgica de Paris ter- 
mina o seu interessante capitulo sobre o tratamento 
e prophylaxia da septicemia cirúrgica: 

« Cette question de riníiueuoe des pausements est 
donc trop récente pour être jugóe rigoureusement 
en Erance avec les faits; elle ne pourra Pêtre que sur 
ies opérations ultérieures faites pour des cas patho- 
logiques, et pour les accidents traumatiques que nous 
pcrmettra d'observer la cliirurgie de la paix. Jusque- 
laje m'en tiens aux deux moyens propliylactiques 
que j'ai mis en évidence: les bonues conditions at- 
mosplióriques ot le pansement rare et occlusifde 
M. Alpb. Guérin.» 



SECÇÃO CIllUKaiCA 



DASPONCÇÕES EVACUADORAS NAS DIFFERENTES 
CAVIDADES 00 CORPO 

I 

As puncções evacuadoras acham-se lioje combi- 
nadas com a aspiração. 

n 

o apparelho de Dieulafois — com o moderno aper* 
íêiçoamento feito peio autor — e o de Potain represen- 
tam um verdadeiro progresso da mecânica cirúrgica. 

III 

No caso em que a compressão exercida pelos lí- 
quidos, contidos uas difíerentes cavidades, compro- 
metta órgãos importantes á vida, dove-se recorrer á 
pimcção evacuadora. 

IV 

O mesmo succedo com os fócos purulentos que, 
por demasiado grandes, se tornam incapazes de reab- 
s orpção. 

V 

O prognostico das puncções evacuadoras é, regra 
geral, Isento de gravidade. 

YI 

Alem da innocuidade intriuseca, a puncção eva- 



116 



cuadora concoiTc muito a evitar os accidentes septi • 
cemicos, tão commuQS nas incisões dos vastos fócos. 

VII 

A dor na piiiicção é menor quo em qualq^jer 
outro processo, e a pocs; " -^ddade de.- nemorrliagias 
mais restcicta. 

YIII 

■ Xas' .ascites complicadas uo ura estado cacheíí- 
co a puncção evacuado- rn. é coiitraindicada. 

A applicação do apparelho de Potain á thora- 
centliese é de utilidade incontestável. 

X 

Nos abscessos e kystos do fígado a puncção as- 
piradora é necessária e muitas vezes de maravilho- 
so resultado. 

XI 

Nas hydrathroses ó sempre preferível a puncção 
evacuadora á incisão. 

XII 

Nas hérnias estranguladas a puncção evacuadora 
é muitas vezes da maior utilidade. 



SECÇÃO A0CES801UA 



QUE IIVIPORTANCIA TEM A FORiVlA PHARMACEUTJCA 
VINHOS NIEDIGINÂES ? 

I 

Os vinhos mediciiiaes ou enoleos são preparados 
com os vinlios tintos, brancos e licores. 

II 

A maceração principalmente e em casos espe- 
ciaes a lixiviação constituem as operações pliarma- 
ceuticas empregadas para a preparação dos vinhos 
medicinaes. 

III 

A' excepção das plantas anti-scorbuticas todas 
as outras devem ser preferidas, para a preparação dos 
enoleos, no estado de dessecação. 

IV 

Nos vinhos tintos predominam o tanniuo e o ál- 
cool, nos brancos o cremor de tártaro e nos licores o 
álcool e a glycose. 

V 

Não se deve, pois, juntar aos primeiros substan- , 
cias metalMcas ou plantas que contenham um alca< 
loide, e sim as substancias reconhecidamente adstrin- 
gentes. 



118 



VI 

Os vinhos brancos presfcam-se melhor á dissolu- 
ção d'essas duas espécies de substaacias, que os tintos 
precipitam. 

VII 

Os vinhos licores devem ser preferidos quando a 
substancia a misturar ó muoilagiuosa ou de conser- 
vação difficil. 

VIII 

A maceração das substancias deve, em geral, ser 
feita durante 24 horas no álcool a 60", antes de sub- 
mettel-as por 10 dias á acção do vinho preferido, 

IX 

Segundo as modernas experiências de Pasteun os 
vinhos para sua conservação devem ser submettidos 
a uma temperatura media de-lõ", e, em certos casos, 
á do f)5" a 70", evitando-se depois oautelosamanto o 
contacto do ar. 

X 

São muito racionaes- as vistas do Pasteur, quando 
procura d'este modo destruir os organismos -fermen- 
tos ou seos óvulos e spóros. 

XI 

E' de grande importância e de ©xteusa appiica- 
ção na pratica a forma pharmaceutica vinhos medi- 
cinaes. 



119 



XII 

A íacil cousciTução d'estes xjreparados é uma das 
razões de sua importância como íorma pliarmaceií- 
íica. 

XIII 

Auxiliam-Das também a facilidade de dissolução 
uos vinhos de um sem numero de substaucias medi- 
cameatosas. 

XIV 

As razões de sua grande acceitação residem, po- 
rem, principalmente, nos resultados clinicos quoti'» 
dianameute realisados. 

XV 

Eutre nó.5 está verificado que é-uma das formas 
pharmaceuticas de mais longa duração e conseguinte- 
mente da mais alta c incontestável importância, 

XVI 

Com o grande numero de vegetaes que possuimos 
fácil nos será para o futuro a preparação ds um gran- 
de numero de vinhos medicinaes, que ainda mais au- 
thenucamente demonstrarão a importância d'(3sta 
íorma pharmajceutica. 



SECÇÃO ME DIO A 



QUÂLP O MELHOR TRATAMENTO DA yYPQHE^IIÃ, 
INTERTBOPIGAL? 

I 

As melliores paginas da Iiypohemia iutortropi- 
Cíil são inquestionavelmente brasileiras. 

II 

Entre nós depois de Wucherer, que tão a fan do 
estudou a hjpobemia, segua-se um auaiero elova- 
dissimo de clínicos nacionaes. 

III 

Os ankylostomos duodeuaes são a causa determi- 
nante da moléstia. 

IV 

A má bygiene, a alimentação insufficiente e toda 
a serie das causas deprimentes predispõem para a 
moléstia. 

V 

A anatomia pathologica da hypohemia intertropi- 
cal, principalmente em relaçcão ao figado e baço, não- 
está ainda perfeitamente elucidada (56). 

[56] Dizem alguns observadores que estas vísceras se apresentam 
quEsi sempre normaes, e algumas vezes mesmo atrophiadas. A;sancçã* 
dos factos não confirmou ainda tal opinião. 

De dous illustrados Professores da l^aculdade, ' oe Srs. Drs. Jero- 



12 i 

yi 

Em tres autopsias que fizemos encontrámos 
sempre os ankylostomos adherentesá mucosa. 

Existiam elles em todo o intestino delgado, pvinci- 
palLueiito, porem, iis) duodaao. 

Yin 

Estes factos por nós observados estcão de accor- 
do com a observação de todos os clinicos que se 
teem occupado da jnolestia. 

IX 

Si aos syniptoma.s communs da aueuiia accros- 
contarmos a infi.ltra9ão, ])rinciyalment6 da face, a 
dyspivóa o as palpitaçõos cardíacas intensas, teremos 
em resumo o syndroraa da hypohemia iutertropical. 

nymo Soclró Pereira e Domingos Carlos da Silva, tivemos occasião do 
ouvir o contrario. 

O Sr. Dr. Sodré teve a lioiidade de refcrir-nos que em um grande 
numero de liypoheniicos que teve de íríitar em u;n dos poutos do nosso 
rcfioncavo, observou o eiigorgitamento do ligado bem considerável. O illus- 
Ire Professor curou sempre ósseos doentes com o leite da gamelleira 
branca— o cspeoiíieo da Lj''poliemia intertropical —vindo d'esta sorte o tra- 
tamento a confirmaT o diagnostico, firmado aliás em um quadro sympto 
matioo bera caracteristico. Não teve, é certo, o rtistincto Professor 
-occasião azada para iini exame anatomo-pathologico, mas clinicamente 
ponde sempre reconhecer o engorgitamento hepático. 

'o nosso illustrado mestre c distincto clinico d'esta capital, o Sr. Dr. 
JJouiiiigos Carlos, em um elevadissimo numero de casos, observados du- 
rante quatorze annfls de cxercicio da clitiica. verificou igualmente em 
grande escala o.engorgitameuto liepatico,que o illustve Professor consider* 
2);eHT)!y coiun um pb,>uomeno coii.siinúc. 



122 



X 

A expiíl&ão de ííDkylottcniGS cim as íezes é sig. 
nal patliognomonico da moléstia. 

XI 

As circurnstancias de &er a mctlestia endémica 
e atacar de prerferencia os pretos e os individues raal 
nutrido?, separam a hypohemia dp chlorose, 

XII 

O prognostico, quando a lufcérveução não c encr- 
gica e apropriada, assume caracter perigoso. 

XIII 

O tratamento antihelmiuthico unido aos tónicos, 
principalmente aos preparados de ferro, tom dad(} 
resultados vantajosos. (57) 

[07] Em relação ao ferro não nos podemos furtar ao prazer de referir o 
segaiiile resultado clinico, conseguido pelo Sr. Dr. Domingoci Carlos. O 
illustre Professor dá confiadamente a preferencia á liraalha de ferro, fun- 
dando o seu procedimento na observação cuidadosa e prolongada e de- 
pois do uni estudo extenso e variado sobre todos os preparadores mar" 
ciacs. A Mua formula predilecta (5 a que se segue: 

11: Limalha de ferro 1 decigrainma 

Ehuiliai-lo cm pó 15 centigrammas 

Canella em pó 20 centigrammas 

F. S. A. um papei e coiiio este mais líi. 
Para tomar um pela manliã e outro á tarde, seguiiido-sc-ll;e uma cl^i- 
cara de infusão de caiiella. 

- PJsta formula é repetida ati5 o completo restabelecimento do docnlo' 
que em todos os casos sujeitos á sua obseiva(;'ão nunca se fez esperar, 
resultado este que nenhum outro preparado de ferro pourte foniccer-llie. 
Outros j)i-at!co.«, segundo nos consta, icem igualmente rccorriil.-i á !i- 



123 



IV 

Entre dós o medicaiDeDto mais enérgico ó o 
leite da gamelleira branca, cnjo principio activo, a 
doliarina, ó hoje conhecido e preparado. 

V 

Alem da acção drástica, reconhecemos em ta} 
substancia uma acção parawiicida especial. * 

VI 

O leite do mamooiro e o da raangabeira teem sido 
empregados também com exccllente resultado. 

XII 

O leito da gamelleira branca, do uiamooiro e da 
mangabeira são, pois, inquesliouavelmunte os melho- 
res meios a empregar contra a miOkstia. 

niallia de ferro e os resiiitudos não diffcrem dos oLtidos pelo Sr. Dr, lío- 
niir: gcs Carlos. 

Seria conveniente, que se repetisseiri as experiências, que sem duvida 
alguma virião elucidar muito as diversas questões rcl-itlvas ao tiaíamtiito 
da inolestiii, si é que não chegassem mesmo a csclarecer-lhe a patho' 
genia. 



HYPPOORATIS APHORISMI 



I 

Neo solam seipsum oportet prsestare opportuna 
facientoni, sed et ^egrum et? assistentes et exteriora. 

(Sect. if aph. 1.) 

II 

Ubi ia febre -non intermittcute, difficultas spi- 
raadi et deiiriuiu aociduat, lothale. 

(Sect. IV. apli. 50,) 

III 

Si rigor, febre non intermittente íegrotíum jam 
debile froqaenfcer invadat, mortiferuiu est. 

(Sect. IV, aph. 4G.) 

IV 

Si in magnis vulueribns et gravis tumores non 
appareaut, ingens malam. 

(Sect. V. apli. 6G.) 

V 

Iq osse ^egrotaute, caro li7ida mala:.u . 

(Soct. VII, aph. 2.) 

VI 

Labra livida, ant etiam resoluta, et inversa, eb 



frigida, mortiíora. 



(Sect. VIII, aph. 13. 




Bahia — Typ. — Americana. 



1 



PUBLICAÇÕES DO MESMO AUTOR 



l* Monstro polyda<5tylo. Ácaãemicd.^{ periódico da Fa- 
culdade), 1. 1372. 

2* Caso de aneurysma dos ossos. Idem n" 2, 5'e 6. 

3* Influencia da vaccina sobre a varíola. Gazeta Medica da 
Bahia, n° 149. 1873, o Instituto Académico (periódico da 
Faculdade) n° 5. 1873. 

4* Tratamento do. diabetes assucarado pelo acido plienico- 
Gaseta Medica da Bahia, n" 167 c 168. 1873, e Incentivo (pe- 
riódico da Faculdade) n*» 2. 1874. 

5* Breve noticia sobre o emprog,o do galvano-caustico 
thermico na extirpação de um tumor maligno, na amputação 
áo penis o na ablação de um grande tumor clephantiaco do 
clitóris. Incentivo, n° 3. 

6* Observações de Clinica cirúrgica, colligidas durante um 
anno de internato na clinica cirúrgica da Faculdade, o reu- 
nidas a um Estudo sobre a pathojenia do beribéri do Dr. 
Ribeiro da : Cunha, formando tudo um volume^, em 8" dfí 
2P4 ;pag,. Bahia. 1874. ,